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Por dentro do famoso prédio giratório de Curitiba; que gira de verdade

Detalhes de uma das construções mais emblemáticas de Curitiba, o empreendimento Suite Vollard. Construído em 2004 ele nunca chegou a ser habitado e seu futuro é incerto

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“Afinal, gira ou não gira?” É a pergunta que todo mundo faz ao passar pelas proximidades da Rua Elvira Harkot Ramina, no bairro Mossunguê em Curitiba, ao avistar o edifício Suite Vollard mais conhecido como “prédio que gira”. Inaugurado há 14 anos, com toda a pompa, o edifício foi lançado prometendo inovação e tecnologia, distribuídas ao longo dos 11 andares giratórios do condomínio que, por conta do alto valor imobiliário e de problemas administrativos, nunca chegou a ser habitado.
O Suite Vollard é um marco na paisagem de Curitiba e reúne um sem número de lendas urbanas.

Em pleno 2018, o Suite Vollard ainda ostenta imponência e se apresenta como um dos empreendimentos mais vanguardistas da cidade porém, vazio, levanta a dúvida: o que lhe reserva o futuro?
“Gira mesmo!”, garante o arquiteto curitibano, Bruno de Franco, que assina o projeto inaugurado oficialmente em 2004, sob administração da extinta Construtora Moro. É quase meio dia. De dentro do primeiro andar do Suite Vollard, onde o arquiteto recebe a equipe da reportagem é possível ver Curitiba em 360 graus. O profissional digita alguns comandos em um pequeno painel eletrônico instalado na única parede do loft e de repente, tudo está girando, quase como em um carrossel, em câmera lenta.
“A ideia foi trazer um empreendimento inovador em tecnologia. Como o lançamento do projeto seria feito numa exposição do artista Pablo Picasso que aconteceria em Curitiba, escolhi homenagear o pintor com a referência do nome que batizava a exposição: ‘Suite Vollard’”, lembra o arquiteto.

 

Arquiteto Bruno de Franco ainda acredita no sucesso do empreendimento.

“Magia”
Com tecnologia desenvolvida em conjunto com o engenheiro mecânico responsável pela obra, Alan Holzmann, o projeto ganhou destaque no cenário imobiliário internacional incluindo citações em veículos como os jornais The New York Times e The Economist. A estrutura conta com 11 lofts de 120 metros quadrados cada e chamou atenção por conta do sistema giratório que permite a cada apartamento circular independentemente por meio de uma plataforma metálica de 90 metros quadrados, apoiada sobre a laje inferior de cada andar. Os responsáveis pela “magia” são motores instalados na parte externa dos apartamentos, que, quando em funcionamento, acionam um sistema de rodas dentadas, fazendo com que os lofts girem ou no sentido horário, ou anti-horário, conforme a vontade do morador.
“A ideia não é ficar girando sem parar como muita gente pensa, mas que cada morador tenha uma experiência única podendo, por exemplo, aproveitar o belo pôr do sol sobre o Campo Comprido e amanhecer olhando para o Parque Barigui pela mesma janela”, diz.

A sensação de estar em um apartamento giratório muito se assemelha à de navegar em um lago ou represa, em um dia sem vento. O movimento é discreto, porém perceptível, inclusive para quem observa o prédio de fora. “Os vidros das janelas têm uma coloração que permite a quem observa da rua, perceber que a configuração do edifício muda a cada giro. É quase como um caleidoscópio gigante”, compara.

Luxo sem uso
Apesar do sucesso estrondoso e do lendário urbano que se construiu ao redor do empreendimento (como o boato de que a apresentadora Xuxa teria adquirido um dos andares do condomínio), o Suite Vollard nunca chegou a ser habitado. Os principais motivos, segundo Franco, foram crises imobiliárias sucessivas – que desaceleraram o mercado de imóveis e problemas relacionados à gestão do edifício.

Em meados de 2008 a administradora Spin Buildings, responsável pelo Suite Vollard, chegou a anunciar o relançamento do prédio após um investimento de R$ 13 milhões em reformas, porém isso nunca aconteceu.

Daí em diante, problemas judiciais em série ligados à construtora, complicaram ainda mais a situação comercial do Vollard, que chegou a ir à leilão por conta de uma ação coletiva movida contra a empresa. A venda não aconteceu, mas o edifício voltaria a ser alvo de medidas judiciais que foram suspensas após a transferência administrativa à atual gestora, a Inepar Administração e Inovações.

Rumos
Outro fator que teria dificultado a venda de apartamentos na época foi a própria aceitação do público curitibano, conhecido pelo apego tradicional. “Enquanto muitos estrangeiros me procuravam para conhecer o prédio, o público curitibano não demonstrava a mesma empolgação. Comecei a achar que em cidade quadrada não se vendia prédio redondo”, ironiza o arquiteto.

Hoje, por conta das dívidas tributárias, o edifício está parado e, mesmo que alguém queira comprar um apartamento não vai conseguir até que a questão seja resolvida. “A ideia é ativá-lo novamente e dar-lhe um novo destino o mais rápido o possível. Tenho forte convicção de que um hotel cairia muito bem ao Suite Vollard”, afirma Franco com olhar orgulhoso sobre a “menina de seus olhos”.

“Mocó” caro
Em meados de 2012, por conta dos problemas judiciais, o Suite Vollard viveu seu “momento trash” quando ficou abandonado no período no qual era transferido à nova administradora. Alvo de vândalos, o prédio foi depredado, pichado e até usado como ponto de encontro de usuários de drogas. Na época, o edifício foi tachado de “Mocó Mais Caro do Mundo”, já que cada apartamento era avaliado em R$ 2,376 milhões. Depois disso, a empresa responsável pela gestão do condomínio solicitou a implementação de vigilância 24 horas no prédio.

Entre os moradores da Rua Elvira Harkot Ramina, onde está situado o Suite Vollard, a opinião é praticamente unânime: o edifício coloca, até hoje, a quadra em evidência. “Um tempo atrás era normal ver vans e ônibus turísticos passando por aqui. As pessoas vinham só pra ver o prédio, mesmo sem girar”, afirma a dona de casa Maria do Carmo Barbosa, 50.

“Quando pego táxi ou Uber, ou quando preciso indicar meu endereço pra alguém, raramente eu falo o nome da rua. Só digo que a minha casa fica ‘na rua do prédio que gira’. Ninguém sabe que rua é Elvira Harkot Ramina, mas, é só falar do Vollard que todo mundo lembra”, diz a empresária Maria Valente, 24.

À beira da fonte desativada, na frente do condomínio, moradores passeiam com seus cachorrinhos. O local virou “point” entre mães que levam os bebês para tomar sol ao fim da tarde e casaizinhos que sentam ali para conversar sempre monitorados pela vigilância do edifício.

Como em qualquer prédio abandonado, o imaginário popular se encarregou de, ao longo dos anos, construir mitos em torno do Suíte Vollard. Entre as lendas urbanas, fantasmas, vultos e até sons misteriosos já foram ouvidos, vindos de dentro do edifício desativado. Por sorte, os Caçadores de Notícias da Tribuna do Paraná não são os Ghostbusters Caçadores de Fantasmas, e felizmente, nossa missão foi concluída com sucesso. Desmistificamos a maior de todas as lendas sobre o “prédio que gira” e confirmamos: ele gira sim.

 

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LEIA POR EDITORIA

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