Educação e Cultura

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Ato de “colar” é cultural e mostra falência do sistema educacional

Países que apresentam altos índices de alunos “colantes” são, em sua maioria, os mesmos que apresentam problemas de corrupção.

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Essenciais para medir a aprendizagem, provas são parte do cotidiano escolar, mas fraudes e colas estão presentes na sala de aula juntamente com as avaliações: pesquisa realizada nos EUA mostra que 51% dos estudantes de ensino médio colam nas provas. A prática é mais recorrente entre os alunos de escolas de elite, que teoricamente estariam mais bem preparados. Porém, segundo o estudo, a preparação dos alunos não é o problema. “A cola, infelizmente, é um aspecto cultural, uma transgressão como outras que o adolescente tende a cometer”, diz Julio Inafuco, mestre em Educação Científica e diretor do Colégio Positivo. “É uma questão de formação, que as escolas devem trabalhar fortemente”, segue.

Dimensão cultural está acompanhada de falhas no processo de ensino e aprendizagem

ASPECTO CULTURAL – De acordo com especialistas, a raiz cultural do ato de colar em provas é social. Trabalho desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão indica se tratar de uma prática ligada tanto a problemas de aprendizagem quanto a aspectos culturais da escola e também da sociedade. “O ato de ‘colar’ pode ser encarado como um ‘aspecto cultural’ da escola, pois essa prática já se tornou comum e rotineira entre os alunos”, dizem os pesquisadores. “Países que apresentaram altos índices de alunos ‘colantes’ são, em sua maioria, os mesmos que apresentam problemas de corrupção”, completa.

Segundo a pesquisa, a dimensão cultural está acompanhada de falhas no processo de ensino e aprendizagem: dificuldades de aprendizagem e a busca por bom desempenho são alguns dos motivos principais para recorrer à cola. “O estudante que vai para a prova sem ter estudado é o que tenta se apoiar em um recurso como a cola, com a expectativa de conseguir um colega que lhe passe as respostas. O padrão de aluno que cola é aquele que não tem uma efetiva participação e que vai para a avaliação contando com a sorte”, diz Julio Inafuco.

Nesse sentido, incentivos a uma participação mais ativa dos estudantes no processo de ensino e aprendizagem pode mudar a perspectiva em relação ao próprio desempenho. “As escolas devem mostrar que o resultado obtido pelo aluno deve ser consequência do seu empenho. Ou seja, mesmo que o aluno não obtenha a nota máxima, se ele fez seu melhor, devemos reconhecer o esforço, estimular e incentivá-lo a evoluir”, explica Julio.

SOLUÇÃO – Inafuco aponta que um trabalho desenvolvido desde os primeiros anos de escolarização mostra resultados no comportamento dos estudantes. Para isso, professores devem ter uma atuação de orientação e formação do aluno, não apenas repressão ao comportamento inadequado. “É possível corrigir esse comportamento, sobretudo com alunos que já entenderam qual é o papel da escola e se sentem incomodados de agir mal”, conta.

Com as colas fazendo parte da rotina das provas escolares, uma mudança pedagógica pode ser a saída, tanto para a falta de preparo que causa insegurança nos estudantes, quanto nas metodologias de ensino e avaliação que levam a colas. “O ato de colar indica o fracasso da proposta pedagógica do professor”, aponta Denise Camargo, professora de Pedagogia na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Tuiuti. “Evidencia que alunos não aprendem porque professores não estão repassando o conteúdo da forma que ele absorva: você não pode por 40 pessoas em uma sala de aula e esperar que todos aprendam igualmente”, completa.

PRESSÃO – Pesquisa conduzida por psicólogos aponta ainda que estudantes colam mais em disciplinas que colocam maior ênfase em provas tradicionais e notas. Do mesmo modo, a ocorrência de colas é menor quando eles percebem que o professor enfatiza a importância do processo de aprendizagem e do domínio do conteúdo ensinado. “A prova, na verdade, mostra apenas a memorização, mas não mostra se realmente o aluno sabe generalizar a aprendizagem dele, aplicar aquilo que aprendeu em outras situações. Cada aluno tem um processo de desenvolvimento. Ele tem que mostrar como está avançando dentro desse processo”, destaca Denise.

Segundo ela, as formas de avaliação devem ser repensadas para destacar todos os aspectos da aprendizagem, e não apenas a memorização. “A prova, da forma que é colocada, é incorreta. Provas são geralmente construídas em cima de uma dimensão de aprendizagem que é a memória, mas não aprendemos só memorizando”, explica. “Precisamos começar a discutir outras formas de avaliações”, conclui.

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