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EMOÇÃO

Amigos separados pelo Holocausto se reencontram após 76 anos nos EUA

Alice Gerstel fugiu com a família para os EUA, e só há seis meses descobriu que ‘pequeno Simon’ escapou de trem para Auschwitz e sobreviveu. Belgas irão contar sua história a visitantes do Museu do Holocausto de Los Angeles.

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Simon Gronowski e Alice Gerstel Weit durante entrevista no Museu do Holocausto de Los Angeles, na quarta-feira (11) (Foto: AP Photo/Reed Saxon)

Quando Alice Gerstel se despediu emocionada dos melhores amigos de sua família em outubro de 1941, ela tinha esperanças de ver o “pequeno Simon” Gronowski novamente. E ela viu – 76 anos depois e a meio mundo de distância de onde se separaram, em Bruxelas. Gerstel e sua família judia tinham se escondido na casa dos Gronowskis por quase duas semanas antes que seu pai enviasse notícias da França, avisando que tinha conseguido um acordo com um contrabandista que iria tirar ela, seus irmãos e sua mãe em segurança da Bélgica ocupada pelos nazistas.

Os Gronowskis, também judeus, decidiram ficar. Eles se esconderam durante 18 meses até que os nazistas bateram em sua porta e colocaram Simon, sua irmã e sua mãe em um trem da morte para Auschwitz. “Eu achava que a família inteira tinha sido morta. Não fazia ideia”, disse na quarta-feira (11) Gerstel (agora Gerstel Weit), um dia depois da reunião cheia de lágrimas. Ela e seu amigo entrelaçaram as mãos no Museu do Holocausto de Los Angeles ao relembrarem sua história.

“Você não sabia que eu pulei daquele trem?”, perguntou Gronowski, agora com 86 anos.

“Não, não. Eu não sabia de nada”, respondeu a amiga de 89.

Os dois retornaram ao museu no domingo para contar aos visitantes como o Holocausto separou duas famílias que tinham se tornado melhores amigas após um encontro por acaso em um resort em uma praia belga em 1939. Como isso levou um menino de 11 anos a uma das mais ousadas fugas da guerra. Como isso colocou a outra família em uma jornada perigosa através da França ocupada que se assemelha a uma cena do filme “Casablanca”.

E, finalmente, como essas jornadas separadas culminaram, três quartos de século depois, em uma reunião alegre e regada a lágrimas em Los Angeles pouco antes do Yom HaShoah ou Dia da Memória do Holocausto. “Eu não o reconheci em nada. Eu não vejo o pequeno Simon”, disse Gerstel Weit na quarta-feira sobre seu encontro na véspera com o homem agora careca e de barba branca sentado ao seu lado, rindo. “Mas ele está aqui. O pequeno Simon está aqui”, ela acrescentou, sua voz tremendo enquanto ela colocava sua mão sobre o coração de Gronowski.

Foram muitos abraços, beijos e choro na quarta-feira enquanto os dois amigos seguraram as mãos apertadas enquanto se sentaram no pátio externo do museu para compartilhar lembranças de um passado muito distante.

Foi um passado que começou ternamente antes de se tornar um pesadelo quando os nazistas invadiram a Bélgica em 1940 e começaram a rondar os judeus. O pai de Gerstel Weit, um negociador de diamantes com mulher e quatro filhos, decidiu fugir em 1941. Ele transformou seus diamantes em dinheiro, comprou nove vistos que colocaram sua família e a família de seu irmão na França ocupada e depois na cidade marroquina de Casablanca, controlada pela França. De lá eles embarcaram em um navio com destino a Cuba.

O pai de Gronowski acreditou ingenuamente que ele e sua família estariam seguros se escondendo em Bruxelas. “Meu pai não estava muito consciente da tensão. Ele não era muito político. Era um poeta. Escrevia em seis línguas”, disse Gronowski, fazendo uma pausa para enxugar as lágrimas. “E como tantas outras famílias que conhecia em Bruxelas”, continuou em um inglês com sotaque holandês, “não conseguia acreditar que na Europa do século 20, naquela civilização, ele não conseguia acreditar que os alemães podiam cair na barbárie”.

Quando os nazistas chegaram, o pai de Gronowski estava em um hospital. Sua esposa rapidamente mentiu, dizendo a eles que ele estava morto e o poupando de Auschwitz. Foi em um trem para o campo da morte, poucas semanas depois, que ela salvou o filho, o empurrando através da porta do vagão em que estavam e dizendo para que ele pulasse.

Depois da guerra ele reencontrou seu pai e acabou voltando a morar no apartamento onde cresceu. Ele alugou as outras unidades e usou o dinheiro para pagar a faculdade de direito e trabalha até hoje como advogado em Bruxelas. A família de Gerstel Weit imigrou para os Estados Unidos, onde ela se casou, teve dois filhos e acabou se estabelecendo em Los Angeles, onde teve uma carreira no setor imobiliário.

Logo depois da guerra, a família dela tentou localizar seus amigos. Gronowski escreveu de volta para o irmão mais velho de Gerstel Weit, hoje falecido, contando a ele que sua mãe e sua irmã tinham morrido em Auschwitz e que seu pai já havia morrido. Por algum motivo, Zoltan nunca contou à família que o “pequeno Simon” sobreviveu.

Ela soube que ele estava vivo seis meses atrás quando seu sobrinho fez uma busca online pelo nome de solteira dela, procurando mais informações sobre a história da família. Ele se deparou com a biografia de Gronwski lançada em 2002, “A Criança do 20º Trem”, na qual a família dela é mencionada com destaque.

Gronowski disse que acredita que o irmão de Gerstel Weit tenha ficado muito abalado para falar sobre sua família. A irmã dele de 18 anos, Ita, tinha sido namorada de Zoltan na Bélgica, e ele tinha declarado seu amor por ela repetidamente em cartas na época da guerra, inclusive em algumas que ela não chegou a ler antes de morrer.

O próprio pai de Gronowski nunca conseguiu lidar com o Holocausto também, ele disse. Durante um tempo, Leon Gronowski manteve a esperança de que sua mulher e sua filha tivessem de alguma forma sobrevivido e de que ele pudesse reencontrá-las.

“Mas quando ele recebeu notícias dos campos de concentração, das câmaras de gás, das montanhas de corpos, meu pai entendeu que sua mulher e sua filha não iriam voltar. E ele morreu de…”, disse, sua voz falhando.

“De coração partido?”, perguntou Gerstel Weit.

“De coração partido”, respondeu ele.

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