Política

VIOLÊNCIA NA POLÍTICA

40 vereadores e prefeitos morreram por assassinato desde 2017

Os assassinatos foram registrados desde janeiro do ano passado, quando iniciou as atuais legislaturas; envolvendo diversos motivos. Cerca de 40% das mortes aconteceram no Nordeste do Brasil.

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A violência contra vereadores, ex-vereadores, prefeitos e ex-prefeitos resultou em pelo menos 40 mortes no Brasil na atual legislatura, segundo registros em reportagens do G1 publicadas entre 2017 e 2018 .

Dos 40 casos, em dois há características de execução por motivação política: o de Francisco Vicente de Souza, prefeito de Candeias do Jamari (RO), e o de Jucely Alves Arrais, vereadora de Aiuaba (CE).

No primeiro, entre os réus condenados está o mandante do crime. O Ministério Público o acusou de planejar a morte do prefeito por ter ficado contrariado com uma decisão administrativa. O mandante, segundo o MP, foi financiador da campanha do prefeito. No de Jucely, o cunhado dela havia sido assassinado meses antes do crime. Dois meses depois do assassinato da vereadora, o marido dela foi morto.

Em outros nove, a possibilidade de crime político é considerada pela polícia. Outros dez casos são relacionados a brigas por motivações diversas, como brigas por dinheiro e desentendimentos pessoais. Nesta semana, a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) foi assassinada a tiros no Rio de Janeiro. Ela foi a 40ª vítima (veja lista com todos os casos ao final desta reportagem).

Além desses 40, também houve assassinatos de dois suplentes de vereador (Roberto da Conceição Margarido, de Itatiaia-RJ, e Ueliton Brizon, de Cacoal-RO) e um ex-vice-prefeito (José Roberto Soares Vieira, de Ourolândia-BA).

A morte de Marielle levou milhares de pessoas às ruas em todo o país em protestos contra o assassinato e a onda de violência na cidade. O Ministério Público avalia pedir a federalização das investigações. O governo federal diz que concentrará “todos os esforços” para identificar e prender os assassinos.

O PSOL, partido ao qual Marielle Franco era filiada, informou ter registrado, desde 2016, 24 mortes de pessoas ligadas a movimentos sociais (quilombolas, indígenas, sindicalistas, MST, etc.) em razão das atividades políticas desenvolvidas por elas.

Em 2016, somente no período eleitoral, a violência contra candidatos atingiu pelo menos 17 estados e levou a 28 mortes. À época, 25 mil militares das Forças Armadas foram destacados para fazer a segurança das eleições, e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pediu à Polícia Federal que investigasse os crimes.

PERSEGUIÇÃO – Para o integrante da coordenação nacional da Pastoral da Terra, Paulo Cesar Moreira, a morte de Marielle não é um caso “isolado”. Isso porque, na avaliação dele, a defesa das pessoas das periferias e do campo “passa por um momento de acirramento e conflito, marcado pela impunidade”.

Segundo Moreira, há uma “seletividade” nas “perseguições” e assassinatos de lideranças que defendem direitos de pessoas que vivem em periferias ou que buscam o acesso à terra. “Em geral, as perseguições e assassinatos visam pessoas com visibilidade, lideranças bem articuladas e com lucidez política, que conseguem levar sua mensagem adiante, como era o caso de Marielle”, afirmou.

Moreira entende que Marielle se enquadrava neste contexto, já que era negra, criada na periferia e, após ser eleita vereadora com mais de 46 mil votos, se tornou uma “voz forte” em defesa de minorias. Para ele, a militância da parlamentar a tornou um alvo. “Marielle tinha autoridade para falar dos problemas das pessoas que vivem nas periferias, sobre a violência das autoridades e do Estado. A perda é grande, porque temos poucas pessoas no Legislativo com essa autoridade, com esse conhecimento de causa”, disse.

Crime ‘mais estruturado’

Pesquisador do Grupo de Violência e Cidadania da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o doutor em sociologia Francisco Amorim afirmou que assassinatos de políticos e de lideranças de movimentos sociais ocorrem com maior frequência em locais onde o crime organizado “está mais estruturado” e tenta impor as próprias regras.

“Essas execuções acontecem em momentos em que há uma disputa pelo controle social da população de modo mais amplo, quando se tenta intimidar não só o adversário, grupo rival ou polícia, mas também a sociedade. É a tentativa de impor uma regra paralela tão ou mais poderosa do que a regra legal”, afirmou.

Amorim lembrou, ainda, que Colômbia e México registram ondas de execuções de políticos e jornalistas, ligadas ao tráfico de drogas. “Não é só marcar território, intimidar ou silenciar uma voz, é dar um recado para toda a sociedade de que a regra paralela é mais forte”, disse. O pesquisador destacou que, muitas vezes, as ações passam por relações de organizações criminosas que contam com integrantes que estão em instituições legais. “As execuções podem ser realizadas não só por gente completamente na ilegalidade, como traficantes, mas por pessoas que operam no mundo legal e cometem ilegalidades”, ponderou.

‘Déficit civilizatório’

Após a morte de Marielle Franco, o presidente do TSE, Luiz Fux, avaliou que o assassinato demonstra o “déficit civilizatório“. “Ficamos chocados com essa notícia, que no mundo de hoje se tente calar a voz política através de uma atitude que demonstra baixíssimo déficit civilizatório nesse campo. Manifestar solidariedade aos familiares e amigos que nesse momento passam intensa dor. Peço licença para enviar a todas as pessoas que lutaram por um Brasil melhor, sem desigualdades e mais justo, nosso abraço sentido e sofrido”, afirmou o ministro. Dentre os 33 políticos municipais assassinados em 2017 no Paraná, apenas um ex-vereador foi morto em Santa Maria do Oeste. E neste ano, dois vereadores de Barra do Jacaré foram assassinados.

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LEIA POR EDITORIA

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