COLUNA
O Caminho de Giumar
“Aprendi que valorizamos muitas coisas inúteis na vida e deixamos de valorizar outras, que amigos de verdade são eternos, que viemos a este mundo com uma missão, que a mágoa é nosso maior defeito e que temos que aproveitar a vida a cada momento”. É dessa forma que Giumar Alves do Nascimento resume o aprendizado ao completar o Caminho de Santiago de Compostela.
Texto por Ana Cláudia Valério . Fotos por Ana Cláudia Valério . 11 de agosto de 2022 . 11:21
A vontade de percorrer o Caminho veio após a leitura do livro de Paulo Coelho, Diário de um Mago, em que ele conta a trajetória de sua aventura no caminho Francês de Santiago de Compostela. “Foi o despertar para sonhar um dia fazer este caminho. Após a aposentadoria, vinha me programando física e monetariamente para fazer em 2020. Porém com a Covid-19 tudo parou, tive que adiar. Em 2021 recomecei a preparação, junto com meu amigo Leudacir Zaminhan. Em janeiro deste ano, estávamos preparados para comprar as passagens, mas ele adoeceu (transplante de fígado). Esperei até fevereiro e estava quase desistindo, porque ele não poderia ir, então ele me chamou e disse que eu teria que ir por mim e ele (chorei muito). Comprei a passagem e embarquei no 26 de abril”, relata Giumar.
Antes de continuar falando sobre a aventura, Giumar nos relata sua trajetória de vida, que ele passou a valorizar ainda mais. Filho de Delvani do Nascimento e Oralda do Nascimento, nascido em Goioerê, tem dois irmãos e duas irmãs. É casado com Roberta Vedoi do Nascimento, com quem tem dois filhos: Alan e Darlan e duas netas: Maria Eduarda e Ana Julia. “Minha infância foi no interior de Goioerê, onde meu pai tinha um sítio e vivíamos basicamente do que produzimos: arroz, feijão, milho, galinha, porco etc. Não tive muita oportunidade de estudo na infância, consegui ir a escola isolada (rural) quando já tinha 10 anos de idade, gostava muito de jogar bola aos domingos, pescar. Nesta época comecei a catar algodão para os vizinhos, trabalhar de boia fria até comprar uma bicicleta para ir a escola, que ficava 4 km de nossa casa. Com 15 anos fui para a cidade de Goioerê sozinho, para continuar os estudos, e para me manter. Limpava lotes, rachava lenha, lavava carro e depois minha tia que tinha loja de confecções me convidou para morar e trabalhar com ela. Foi a ajuda que precisava, fiquei quatro anos, depois fui trabalhar num banco por 10 anos”, relembra.
Giumar chegou em Medianeira em maio de 1988, onde constituiu a Papelaria Alternativa, que conduziu por 30 anos e teve muito sucesso, fez amigos e criou a família. “Tentei várias vezes ter uma formação acadêmica, mas não tive oportunidade até que surgiu em Medianeira a Facemed, fui da primeira turma, formado em Letras e Pós-graduado em Docência do Ensino Superior, pela Univel”, comenta.
Essa história de vida, sempre com muita dificuldade, lutas e trabalho passavam pela cabeça de Giumar ao percorrer o Caminho de Santiago a todo momento. “Iniciei no dia 28 de abril, às 6h30, na cidade de Sant-Jean-Pied-de-Port, França, debaixo de muita chuva, subindo a cordilheira dos Pirineus, era muita lama, em torno de 20 km. Foi o único momento em que me perguntei o que estou fazendo aqui, afinal não era promessa e nem motivos religiosos, até então um desafio pessoal. Pensei em desistir, mas lembrei do meu amigo dizendo: ‘ande por você e por mim’, aí encontrei um peregrino da Irlanda na mesma situação, um deu incentivo ao outro e seguimos em frente. No dia seguinte, ainda com chuva, descemos a cordilheira e foi pior, as unhas do pé esquerdo ficaram roxas e até o final da caminhada acabaram caindo. Outro momento difícil foram muitos calos de água no solado dos pés e calcanhar, mas já estava acostumado e a caminhada e não foi prejudicada, não pensava mais em desistir, dificuldades superadas”, descreve.
Segundo ele, durante a caminhada, sem querer, dividiu em três etapas. A primeira era a preocupação do dia a dia, com as coisas daqui do Brasil: casa, família, contas, etc. “Andava 30 km em média, parecia pouco e ficava angustiado, tinha dias que caminhava até 40 km para adiantar, mas ainda não tinha despertado que cada km tinha uma história, que faz parte da humanidade e eu tinha que aproveitar estes momentos”.
A segunda fase – do 10º ao 20º dia – Giumar começou a ver o mundo de outra forma, valorizar coisas que até então não via, paisagens, montanhas, cidades medievais, praticamente abandonadas, construídas de pedras limpas, construções romanas, como muralhas, igrejas, pontes, etc. “Comecei a valorizar as coisas que uma geração milenar nos deixou para apreciar, admirar e ver como civilizações foram construídas e destruídas várias vezes. Outra coisa importante foi que encontrei pessoas do mundo todo, conversávamos mesmo com idiomas diferentes e conseguíamos nos comunicar. Confirmei que somos todos iguais, não importa de onde você vem, de qualquer parte do mundo, as alegrias, as dificuldades, a dor, os sonhos, as realizações, as conquistas e as decepções são iguais para todos”, relata.
A terceira etapa, que compreendeu os últimos 12 dias, foi marcada pela ansiedade. “Tive que me conter e me programar, não caminhava mais que 25 km por dia, porque iria chegar muito cedo e tinha já comprado a passagem de volta à Madri. Este foi o momento em que fiquei concentrado em mim e no meu lado espiritual com Deus, pensei na vida e repensei várias vezes, por que estou aqui? Qual a minha missão na Terra, será que cumpri, ainda tenho muito o que fazer? O que deixei de fazer? Quando cheguei, num sábado, depois de percorridos 860 km, às 11h, em Santiago, no pátio da Catedral, senti uma emoção muito forte. Ali chegam centenas de pessoas do mundo inteiro, todos se abraçando e muito choro pela missão cumprida”, finaliza o peregrino.




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