PSICOLOGIA
“Stalkers”: quando o encanto vira obsessão
O mundo virtual veio como uma proposta de facilitar a vida, aproximar as pessoas, disponibilizar ferramentas de interação em tempo real. Rara pessoa, hoje, que não tenha uma rede social, um aplicativo de mensagens.
Por Camyle Hart . 27 de outubro de 2022 . 14:29
Mas, como o universo da rede é uma extensão das nossas vidas, além dos incontáveis benefícios, também é um campo fértil para os desequilíbrios humanos. Este mundo paralelo acaba refletindo as angústias, as dúvidas, os desejos e todas as nossas emoções, sendo elas sadias ou adoecidas. E aí surgem os “stalkers”, nome dado às pessoas que perseguem de maneira obsessiva outras pessoas nas redes sociais.
Inicialmente, o interesse pode surgir pela admiração e encantamento, mas logo dá lugar a um pensamento e atitudes obsessivas, que são alimentadas pelas redes sociais, através da perseguição virtual. O perfil do “stalker” demonstra o desequilíbrio emocional através da vigilância excessiva da vítima, utilizando-se de todos os meios virtuais para estar em contato com o outro. O “stalker” segue, observa a rotina da outra pessoa para conhecer seus hábitos, liga, manda mensagens, oferece presentes. Também são comuns as aparições nos espaços que a outra pessoa costuma frequentar (restaurantes, bares, cinemas, lojas, entre outros). Os métodos usados podem variar, mas sempre se tratam de uma perseguição persistente que tende a se agravar.
Em muitos casos, a ação do “stalker” culmina em ações extremas, como a invasão de perfis sociais, contas de e-mail, computadores, celulares e ameaças, tanto virtuais quanto físicas. Quando isso acontece, a fronteira do interesse é transpassada e dá lugar à obsessão.
Geralmente, o “stalker” é aquele indivíduo que não consegue lidar bem com as perdas e frustrações, o que desencadeia um descontrole emocional diante de situações de rejeição, insegurança e tristeza. Assim, sentem-se motivados a buscar proximidade e compreensão do que está acontecendo nas redes sociais, visualizando a rotina e tudo o que diz respeito à outra pessoa, fazendo da perseguição um vício.
Como esclarece um trecho do livro `Comer, Rezar e Amar`, de Elizabeth Gilbert: “O vício é a marca de toda história de amor baseada na obsessão. Tudo começa quando o objeto de sua adoração lhe dá uma dose generosa, alucinante de algo que você nunca ousou admitir que queria – um explosivo coquetel emocional, talvez, feito de amor estrondoso e louca excitação. Logo você começa a precisar dessa atenção intensa com a obsessão faminta de qualquer viciado. Quando a droga é retirada, você imediatamente adoece, louco e em crise de abstinência, sem falar no ressentimento […]. Enquanto isso, o objeto da sua adoração agora sente repulsa por você. Ele olha para você como se você fosse alguém que ele nunca viu antes, muito menos alguém que um dia amou com grande paixão. […] Você agora chegou ao ponto final da obsessão amorosa – a completa e implacável desvalorização de si mesma.”
Camyle Hart – jornalista e psicóloga
Atendimento terapêutico – fone 99932-0666


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