Especial

ESPECIAL DIA DA MULHER

Coragem que protege, justiça que acolhe

Durante muito tempo, a imagem da segurança pública e da Justiça esteve associada a figuras masculinas. Mas essa realidade vem mudando, e com firmeza. Em Medianeira, mulheres ocupam hoje posições estratégicas na linha de frente do combate ao crime, na proteção de vítimas e na garantia de direitos.

Na Polícia Militar do Paraná, na Polícia Civil do Paraná e no Tribunal de Justiça do Paraná, elas vestem a farda, conduzem investigações, decretam medidas protetivas e proferem decisões que impactam vidas. Mais do que representar uma conquista de espaço, essas mulheres simbolizam competência, preparo e sensibilidade em áreas historicamente desafiadoras.

No mês dedicado às mulheres, esta reportagem dá voz a profissionais que transformam coragem em missão e mostram que proteger, julgar e servir à sociedade também é, e sempre foi, lugar de mulher.

Isadora Leão – Delegada da Polícia Civil de Medianeira

O Direito não foi a primeira escolha de Isadora Leão. Ela iniciou o curso de Arquitetura na UFPE, mas desistiu por questões pessoais e, depois, formou-se em Direito pela Faculdade Estácio de Alagoas, em 2012. Atuou na advocacia entre 2013 e 2022, período em que decidiu se dedicar aos concursos públicos, intensificando os estudos durante a pandemia. Fez Pós-Graduação em Direito Constitucional pelo Instituto Damásio, em 2015, foi servidora da Justiça Federal do Rio Grande do Sul entre 2022 e 2025, com passagens também pelo TRF3 e pelo TJAL. Em 2024, foi nomeada Delegada da Polícia Civil do Rio Grande do Norte e, desde o ano passado, atua como delegada no Paraná.

Ela conta que, inicialmente, não pretendia seguir na Segurança Pública. “Era uma área que eu buscava evitar, pelos estigmas relacionados ao machismo e ao atendimento ao cidadão. Com o tempo, percebi que essa visão era ultrapassada. A segurança pública vem se renovando, tornando-se mais humana e integrada à população”, afirma.

Foi então que entendeu que poderia ser parte dessa transformação. “É fácil se afastar dos problemas e esperar que outros resolvam. Eu percebi que poderia contribuir, ser uma presença feminina com olhar humano em um cargo relevante para a sociedade”.

Isadora destaca a importância das referências femininas em sua trajetória, especialmente a mãe, que considera sua principal inspiração. O caminho até a aprovação também exigiu maturidade e renúncias. “Decidi ser delegada em um momento em que achava que minha vida já deveria estar estabilizada. Precisei retomar os estudos e pausar planos pessoais, enfrentando ansiedade e medo”.

Hoje, defende que mulheres na segurança pública podem exercer suas funções sem abrir mão da própria identidade. “Podemos continuar sendo exatamente quem somos, sem assumir, por exemplo, uma identidade truculenta que não nos representa. Competência e resiliência não são características relativas a gênero e mulheres na segurança pública são igualmente aptas a liderar (por que não?)”.

Para ela, a presença feminina contribui com sensibilidade e profundidade no cuidado com as pessoas e na condução do trabalho.

Rita Dusinski – Cabo da Polícia Militar

Rita Dusinski ingressou na Polícia Militar do Paraná em 2013. Após concluir a formação, atuou na Rádio Patrulha, passou pela ROTAM, trabalhou no setor administrativo e hoje atua na Patrulha Rural Comunitária, da 2ª Companhia da Polícia Militar de Medianeira. “Não foi um sonho de infância, mas sempre tive vontade de trabalhar com algo que me permitisse ajudar pessoas. Hoje posso dizer que me encontrei na profissão. Sempre busquei me aperfeiçoar e no ano de 2025 veio a promoção a Cabo, que foi um reconhecimento importante de toda essa trajetória”, salienta.

Uma trajetória marcada por desafios, mas sempre vestindo a farda com orgulho. “Em alguns momentos precisei provar minha capacidade por ser mulher, acabei sentindo que precisava mostrar um pouco mais de firmeza. Mas vamos conquistando nosso espaço, e essas situações acabam sendo bem isoladas. Na maioria das vezes as pessoas são receptivas e se sentem mais à vontade para conversar, principalmente mulheres, idosos e crianças. Inclusive é muito comum ouvir comentários de apoio e incentivo”, declara.

Ela complementa que: “representar as mulheres dentro da corporação é uma grande responsabilidade, mas também uma satisfação, porque demonstra que é possível a mulher estar em qualquer lugar, exercendo qualquer profissão”.

Elisa Sabino de Azevedo Duarte Silva – Juíza da Vara Criminal e Anexos da Comarca de Medianeira

Natural do Rio de Janeiro, Elisa Sabino de Azevedo Duarte Silva formou-se em Direito pela UERJ e, após a aprovação na OAB, cursou a pós-graduação da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, preparando-se para a carreira na magistratura. Atuou como juíza leiga no TJRJ e como analista do Ministério Público de São Paulo. Em 2019, foi aprovada no concurso do Tribunal de Justiça do Paraná, realizando o sonho de se tornar juíza. Tomou posse em julho de 2020, durante a pandemia, e atuou em diversas comarcas até ser promovida, por merecimento, à Vara Criminal e Anexos da Comarca de Medianeira, em fevereiro de 2026.

A decisão pela magistratura surgiu ainda na faculdade. “Queria ser instrumento de Justiça e transformação social. O que mais gosto na minha profissão é ouvir as pessoas e buscar, com legalidade e ética, a solução mais adequada para os conflitos”, afirma.

Ela relata que, no início da carreira, precisou provar sua capacidade por ser mulher e presenciou situações de discriminação contra colegas. “A melhor resposta sempre foi trabalho, estudo e postura institucional”. Dra. Elisa destaca que houve avanços e lembra que hoje existem ações afirmativas, como listas exclusivas para mulheres na promoção ao cargo de desembargador, buscando maior equilíbrio nos tribunais.

Ao assumir a Vara Criminal às vésperas do Dia da Mulher, reforça o compromisso com o enfrentamento à violência de gênero. Em 2025, a Comarca de Medianeira registrou 305 pedidos de medidas protetivas de urgência com base na Lei Maria da Penha, uma média de ao menos uma análise por dia útil. “Assumo com seriedade e rigor para trazer mais segurança e justiça às mulheres”, salienta.

Sobre o equilíbrio emocional diante de casos complexos, ela afirma que a empatia deve caminhar junto com o distanciamento técnico e a imparcialidade. “Estudo constante, diálogo institucional e apoio familiar são fundamentais”, frisa a juíza.

Para as jovens que sonham em ocupar espaços de decisão, deixa um recado: “A educação é a ferramenta mais poderosa de transformação. Acreditem na própria capacidade e não se deixem limitar. O caminho pode exigir dedicação e resiliência, mas é plenamente possível. Eu sempre acreditei no meu sonho e no meu propósito e, apesar de inúmeros obstáculos, nunca duvidei que um dia o realizaria” finaliza.

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