O cansaço de ser incrível
Por Camyle Hart . 6 de novembro de 2025 . 11:38
Há um esgotamento silencioso rondando muita gente. É o cansaço de parecer bem, de dar conta de tudo, de sustentar uma imagem que por dentro já não se sustenta. Vivemos tempos em que ser apenas “suficiente” parece pouco. É preciso ser produtivo, interessante, inspirador e, de preferência, o tempo todo.
Essa exigência invisível vem disfarçada de motivação. Mas o que parece força, muitas vezes é medo: medo de não ser lembrado, de decepcionar, de não caber na própria vida. A ansiedade de desempenho nasce nesse lugar, onde o olhar do outro passa a definir o nosso valor.
Na psicologia analítica, Jung nos lembra que o ego, ao tentar sustentar uma imagem idealizada, se distancia do Self, do centro mais sábio e autêntico da psique. Nesse afastamento, surge o vazio. Quanto mais nos esforçamos para parecer fortes, mais frágeis nos tornamos. Quanto mais mostramos o brilho, mais a sombra pede para ser escutada.
Mas há um caminho de volta. E ele começa no contrário da pressa. Começa no “não posso agora”, no “hoje eu preciso de pausa”. Começa quando aceitamos o cansaço como um sinal e não como falha. O descanso é reparo, o silêncio é escuta.
Talvez o maior ato de coragem, hoje, seja permitir-se ser comum.
Aceitar que a vida é feita de pausas, de imperfeições, de dias sem brilho. Quando abrimos espaço para o erro e o descanso, algo essencial se reorganiza dentro de nós. O ego se rende, e o Self pode enfim se expressar.
No fim, não precisamos ser extraordinários. Precisamos ser inteiros.



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