Ouvir virou raridade
Por Camyle Hart . 22 de janeiro de 2026 . 14:08
Há algo seriamente comprometido na forma como as pessoas se relacionam hoje: a incapacidade de escutar. Não se trata de um detalhe comportamental, mas de um sinal de adoecimento psíquico coletivo. Falta paciência, falta interesse real pelo outro e sobra ansiedade. As conversas acontecem, mas o encontro raramente se sustenta.
Escutar exige tempo, disponibilidade e renúncia do próprio protagonismo. As pessoas iniciam diálogos, mas não permanecem neles. Enquanto alguém fala, o outro se inquieta, se distrai, pega o celular, olha notificações ou apenas aguarda o momento de interromper. Não há escuta, há espera. Espera para falar de si, para retomar o controle da cena, para não sair do próprio eixo.
A ansiedade ocupa um lugar central nisso. Ela encurta a tolerância, acelera o pensamento e torna o silêncio quase insuportável. Escutar alguém implica suspender o próprio fluxo interno por alguns instantes, e isso gera desconforto imediato. Surge a necessidade de interromper, de concluir pelo outro, de acelerar a fala alheia ou de desqualificá-la. O tempo do outro passa a ser vivido como invasão.
Mas a questão não se resume à ansiedade. Há também um empobrecimento evidente do interesse pelo outro. Em muitas relações, o outro deixou de ser sujeito e passou a funcionar apenas como plateia, espelho ou instrumento de validação. Escuta-se enquanto a fala confirma crenças, dores ou narrativas próprias. Quando deixa de confirmar, a atenção se dissolve.
A ausência de escuta empobrece as relações. Conflitos se repetem não por falta de argumentos, mas por excesso deles. Todos querem ser compreendidos, poucos se dispõem a compreender. O diálogo perde profundidade e se transforma em sobreposição de discursos.
Escutar não é concordar, aconselhar ou resolver. Escutar é sustentar a presença diante do outro sem a urgência de responder, corrigir ou competir. Isso exige maturidade emocional, algo pouco incentivado hoje, quando o que se valoriza é desempenho, opinião rápida e visibilidade constante.
Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo seja admitir essa falência da escuta. Porque onde ninguém escuta, ninguém é realmente visto. E onde ninguém é visto, o que se instala não é comunicação, é solidão.



Comentários