DIA DOS PAIS
Um olhar sobre a saúde do homem
Não é fraqueza, é amor. Prevenir doenças, cuidar da mente e valorizar a vida são escolhas de coragem
Texto por Ana Cláudia Valério . Fotos por arquivo pessoal . 7 de agosto de 2025 . 14:10
Os homens, de maneira geral, costumam ser mais descuidados com sua integridade física, do que as mulheres, principalmente devido a fatores culturais e por falta de informação. “O estigma da masculinidade e o conceito subliminar de que fazer consultas médicas e realizar exames seria um sinal de fraqueza, atrelada ao vício sistemático de adiar medidas simples de prevenção, levam muitas vezes os homens a protelarem os cuidados com sua saúde. Não há uma tradição de cuidado preventivo no paradigma de criação do homem. “Diferentemente das mulheres, que são incentivadas desde cedo a consultarem-se com um profissional médico e realizarem exames ginecológicos regulares, os homens comumente não recebem a mesma orientação”, destaca Dr. Fernando Luiz Motter, Médico Oncologista Responsável Técnico da OncoMedi.
O profissional ressalta que os homens vivem, em média, 7 anos a menos que as mulheres. “Em 2023, a perspectiva de vida da população masculina no Brasil chegou a 73,1 anos e a das mulheres, de 79,7 anos. Estima-se que cerca de 30% dos cânceres poderiam ser evitados por mudanças no estilo de vida e adotando uma postura preventiva”.
PREVENÇÃO E DIAGNÓSTICO PRECOCE – A postura de descuido com a própria saúde pode culminar em diagnósticos mais tardios, o que faz com que doenças sérias, como moléstias cardiovasculares ou urológicas, permaneçam grande tempo sem tratamento, aumentando suas complicações e diminuindo as chances de se seu controle. “Neste cenário, também os cânceres podem ter diagnósticos mais tardios no sexo masculino, pois quando os tumores causam sintomas já têm um tamanho maior (maior volume e maior potencialidade de disseminação local ou até mesmo para órgãos distantes). Os cânceres que tem a maior prevalência no homem brasileiro, e que despertam maior preocupação, são o câncer de próstata, de pulmão e gastrointestinais (intestino e estômago)”, esclarece o médico.
O Dr. Fernando orienta a visita rotineira ao médico, preferentemente com período máximo de um ano de intervalo. “É primordial para que se estabeleçam diagnósticos precoces e corretos, além de acompanhamento e orientação. O controle da pressão arterial, a vigilância para moléstias endócrinas como diabete e a atenção para os aspectos ligados à próstata (controle de seu volume, de possíveis sintomas urinários obstrutivos e dos valores de exames de sangue correlatos como o PSA) aumentam as chances de se manter saudável e de facilitar as condutas médicas, que habitualmente são mais facilitadas quando se intervém no início dos processos de doença. No caso de tumores malignos, detectados em fase inicial, com pequeno volume e decorrido pouco tempo para um possível alastramento, as chances de cura são maiores”.
A partir dos 50 anos, os homens devem começar a realizar exames preventivos mais específicos, como o de próstata. “Homens negros e homens com histórico de câncer de próstata na família de primeiro grau devem ter ainda maior atenção para o câncer de próstata, pelo maior risco de desenvolvimento da doença, e devem procurar acompanhamento médico a partir dos 45 anos”, pontua o médico.
ESTILO DE VIDA E FATORES DE RISCO – Alguns hábitos aumentam o risco de desenvolvimento de câncer nos homens. “Tabagismo, consumo excessivo de álcool, alimentação inadequada (dietas ricas em sal, carboidratos, gordura e carne processadas e pobres em vegetais, fibras e frutas), sedentarismo e obesidade são hábitos intrinsecamente ligados a maior risco de desenvolvimento de câncer. Há também outra questão, que envolve a maior exposição ocupacional a agentes químicos (historicamente, os homens ocuparam e ocupam mais prevalentemente cargos profissionais que envolvem riscos ocupacionais, e é comum que tenham menor atenção e aderência ao uso correto de equipamentos de proteção do que as mulheres, em postos de combustíveis, indústrias e setores de manipulação de matéria-prima ou resíduos)”, descreve.
Dr. Fernando Motter complementa falando dos três pilares do estilo de vida que têm impacto direto na redução do risco de câncer, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. “Estima-se que a alimentação saudável reduza em cerca de 20 a 30% a formação de cânceres de maneira geral. Atividade física é fundamental. Segundo um estudo publicado pelo National Institutes of Health, com base em dados de mais de 1,4 milhão de pessoas, a prática de esportes de maneira geral reduz o risco de câncer em cerca de 15%. O sono reparador regula hormônios no sistema nervoso central e na circulação geral que promovem a reparação celular e a inibição de substâncias inflamatórias e que causam desordens celulares e desarranjos teciduais que podem levar ao câncer. A privação do sono está associada ao aumento de inflamações e ao enfraquecimento do sistema imunológico”, explica.
SAÚDE EMOCIONAL E FAMILIAR – Médico Oncologista Responsável Técnico da OncoMedi informa ainda que a família e, especialmente os filhos, podem ter um papel poderoso na mudança de comportamento dos pais. “Compartilhar informações, demonstrar preocupação e cuidado, acompanhar o pai em consultas, dar o exemplo de autocuidado podem ser atitudes essenciais para estimular a procura de um estilo de vida mais saudável e do correto acompanhamento médico. Estima-se que 70% dos homens que procuram atendimento o fazem por incentivo da esposa ou filhos. Realizar cobranças com empatia, celebrando pequenas conquistas e criando momentos saudáveis em família podem ser estratégias valiosas para se obter uma boa adesão do pai, fortalecendo o vínculo emocional e trazendo muitos benefícios a todos”.
Outro ponto de alerta é a saúde mental, que de acordo com o Dr. Fernando, desempenha um papel crucial na prevenção, diagnóstico precoce e tratamento eficaz do câncer. “O estado emocional pode afetar diretamente o comportamento de autocuidado, a imunidade e a adesão ao tratamento”, reforça.
CAMPANHAS E CONSCIENTIZAÇÃO – A campanha Agosto Azul foi criada no Paraná, em 2012, e depois teve expansão nacional. O objetivo é promover a saúde integral do homem, com foco em prevenção, diagnóstico precoce e mudança de hábitos. “Embora ainda não existam dados precisos sobre a percentagem de vidas salvas diretamente atribuídas à campanha, há evidências de impacto positivo na conscientização e na oferta de serviços preventivos. Sabe-se, através de levantamentos científicos internacionais, que campanhas de rastreamento e diagnóstico precoce do câncer podem aumentar a chance de cura em até 20%. A detecção precoce do câncer de próstata aumenta a chance de cura, reduz a necessidade de tratamentos agressivos e aumenta a sobrevida”, comenta o médico.
Ele reitera também que há grandes desafios a serem enfrentados, uma vez que há realmente uma baixa procura masculina pelos serviços de saúde. Dados da Atenção Primária à Saúde (APS) no Paraná mostram que em 2024, apenas 29% dos atendimentos individuais realizados na faixa etária de 20 a 59 anos foram destinados a homens. Essa baixa procura demonstra o desafio contínuo de superar preconceitos e estimular o autocuidado entre os homens. “Estratégias para aumentar o alcance da campanha podem englobar ideias como um aumento da divulgação em “ambientes masculinos” (empresas, clubes esportivos), em igrejas, festas comunitárias; buscar sempre linguagem acessível e visual atrativo (vídeos curtos, com informação leve); buscar parcerias com influenciadores, figuras públicas e até mesmo com humoristas; trazer depoimentos reais; levar palestras, exames e atendimentos para bairros distantes e zonas rurais”, sugere Dr. Fernando.
DIA DOS PAIS – O Dia dos Pais, assim como a data do aniversário, podem ser momentos interessantes para nos lembrarmos de cuidar da saúde. “O Dia dos Pais é um dia para celebramos a vida, e lembrarmos como a paternidade é generosa e maravilhosa. Também é uma ótima oportunidade para nos recordarmos que ela traz consigo muitas responsabilidades, entre elas o cuidado como minha saúde, como pai que sou. Preciso estar saudável para cuidar e orientar. Quem me ama quer que eu esteja bem, e por muito tempo, ao lado deles. Também é minha função em mudar a cultura de autocuidado com meus filhos homens”, finaliza Dr. Fernando, como médico e pai.



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