Especial

SAÚDE MENTAL

Os desafios emocionais de crianças e adolescentes

A saúde mental de crianças e adolescentes tem se consolidado como um dos grandes desafios do nosso tempo, atravessando os muros da escola e o cotidiano das famílias. Ansiedade, episódios de bullying e a crescente pressão por desempenho acadêmico e social afetam diretamente o desenvolvimento emocional de jovens, que ainda estão aprendendo a lidar com sentimentos, frustrações e expectativas. “A saúde mental das crianças e adolescentes requer atenção constante. Tenho recebido/percebido um aumento significativo de demandas relacionadas à ansiedade, irritabilidade, baixa tolerância à frustração, dificuldades emocionais (até mesmo em reconhecimento das emoções e como lidar com elas) e também questões relacionadas a autorregulação emocional. Muitas crianças chegam na terapia com dificuldade em expressar e nomear o que sentem e isso faz com que tenham determinados comportamentos”, informa a Psicóloga Renata Matté Maccarini de Sá (CRP 08/20326).

Segundo ela, a promoção da saúde mental acontece de forma mais eficaz quando existe o trabalho em conjunto com a família e profissionais da saúde, proporcionando uma rede de cuidado, favorecendo o desenvolvimento integral das crianças. “A família é o primeiro espaço de vínculo, segurança, diálogo e aprendizagem emocional. Podemos dizer que é na convivência familiar que a criança constrói a referência sobre carinho, afeto, comunicação, limites e o manejo das emoções. Quando a criança tem um ambiente familiar previsível, com acolhimento, escuta, compreensão e validação dos seus sentimentos, favorece o seu desenvolvimento emocional e a sensação de segurança. Não, isso não significa que haverá ausência de conflitos, significa que haverá a presença de um adulto disponível para orientar, mostrar, nomear as emoções e auxiliar a criança/adolescente a lidar com suas frustrações”, complementa.

Além da família, a escola também desempenha um papel muito importante. “É um dos principais espaços de desenvolvimento emocional e social das crianças e dos adolescentes. Além do ensino acadêmico, é um ambiente onde vínculos são construídos, emoções são vivenciadas e habilidades socioemocionais são constantemente vivenciadas e exercitadas”, explica Renata.

E é normalmente na escola que as crianças sofrem o Bullying, que de acordo com a psicóloga, pode deixar impactos imensos, profundos e duradouros na saúde mental das vítimas, pois, afeta diretamente a autoestima, a segurança emocional, o senso de pertencimento, podendo gerar ansiedade, medo, isolamento social, tristeza persistente e sintomas depressivos. “Crianças e adolescentes que já sofreram/sofrem bullying, frequentemente, passam a ver-se de forma negativa, aceitando e internalizando as agressões como verdades. O cyberbullying agravou significativamente esse cenário, pois ele ultrapassa os limites e invade o espaço íntimo da vítima, podendo acontecer de forma contínua e com grande alcance”, alerta.

O uso das redes sociais também deve ser observado e monitorado. “As redes podem sim ser espaço de conexão, expressão e troca, mas também de comparação constante e validação externa. Há um grande risco de maior insegurança, baixa autoestima e sentimento de inadequação quando o adolescente passa a medir o seu ‘valor’ a partir de curtidas, comentários e padrões idealizados”, ressalta a psicóloga.

Renata reforça ainda que os pais e a escola devem estar sempre atentos aos sinais e procurar ajuda profissional quando necessário. “O auxílio deve ser procurado sempre que a criança/adolescente demonstrar sofrimento persistente, intenso ou quando estiver interferindo na rotina e no desenvolvimento. Quando as mudanças de comportamento deixam de ser momentâneas/passageiras e passam a manter-se por mais tempo, é um sinal importante de atenção. São indicadores as alterações no humor, no sono ou no apetite, queda no rendimento escolar, isolamento social, irritabilidade excessiva, medos intensos, crises frequentes de choro ou comportamentos regressivos”, esclarece.     

No caso específico da ansiedade, a profissional salienta que faz parte do indivíduo, faz parte do desenvolvimento e, em certa medida, é uma resposta natural diante dos desafios, mudanças ou situações novas que estamos expostos. “A ansiedade passa a exigir atenção quando deixa de ser pontual e interfere de forma significativa na rotina da criança/adolescente. A intensidade, a frequência dos sintomas, a duração e o impacto em seu dia são alguns sinais de alerta. Quando a ansiedade provoca sofrimento, prejuízos no sono, no rendimento escolar, na alimentação, quando gera esquivas constantes como evitar alguns locais, atividades ou situações comuns à idade é um indicativo de que algo precisa ser avaliado e cuidado”, finaliza.

A promoção da saúde mental acontece de forma mais eficaz quando existe o trabalho em conjunto, proporcionando uma rede de cuidado favorecendo o desenvolvimento integral das crianças

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