Policial

ATRIBUIÇÕES E ESTRUTURA

Segurança pública em Medianeira: quem protege a cidade e quais são os desafios do sistema

Dando sequência à série de reportagens sobre segurança pública, reunimos autoridades municipais e forças policiais para analisar estrutura, responsabilidades e a realidade da segurança no município

A segurança pública é dever do Estado, direito de todos e responsabilidade compartilhada entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios, conforme a Constituição Federal (art. 144). Mas cada um tem atribuições diferentes. Ou seja, garantir a segurança da população é uma responsabilidade compartilhada entre diferentes instituições e níveis de governo. Em Medianeira, esse trabalho envolve desde a atuação preventiva da Polícia Militar e a investigação conduzida pela Polícia Civil até o papel do poder público municipal e do sistema de Justiça. Para compreender como essa engrenagem funciona na prática, quais são os desafios enfrentados e quais caminhos podem fortalecer o setor, o Jornal Mensageiro dá continuidade à série especial de reportagens que reúne entrevistas com autoridades, esclarece atribuições e traz dados sobre a realidade da segurança pública no município.

Na prática, o sistema de segurança funciona como uma engrenagem: cada instituição tem atribuições específicas e complementares, que precisam atuar de forma integrada para garantir a ordem, prevenir crimes e assegurar o direito da população à segurança. “A segurança pública só funciona quando há integração. Em Medianeira, nosso papel enquanto município é fortalecer o diálogo e a cooperação entre a Polícia Militar, a Polícia Civil, o sistema de Justiça e a comunidade. Investir em prevenção, planejamento urbano e apoio às forças de segurança é fundamental para que cada instituição cumpra bem sua função e para que a população sinta os resultados no dia a dia”, afirma o prefeito de Medianeira, Antonio França.

Além de ser mediador dessa integração, o município também pode optar pela implantação da Guarda Municipal, uma decisão que vai além da segurança imediata e envolve aspectos legais, financeiros e estratégicos. “A Guarda Municipal amplia a sensação de segurança, principalmente em áreas como escolas, praças, unidades de saúde e prédios públicos. A presença constante tende a inibir pequenos delitos e atos de vandalismo. Além disso, Guardas costumam ter vínculo mais próximo com a população, atuando em ações educativas, mediação de conflitos e projetos de segurança comunitária. No entanto, criar e manter uma Guarda Municipal exige investimento contínuo em salários, treinamento, viaturas, equipamentos, armamento (quando houver) e estrutura administrativa. Há o risco de a população esperar da Guarda uma atuação que legalmente ela não pode oferecer, como investigações ou ações típicas de Polícia Militar. Enfim, sem planejamento, doutrina clara e capacitação constante, a Guarda pode perder efetividade e se tornar apenas um custo adicional”, reforça Antonio França.

TECNOLOGIA – O Prefeito de Medianeira destaca ainda a importância de se investir em tecnologia e cita a Central de Monitoramento de segurança e trânsito, inaugurada em outubro de 2024, que conta com 600 câmeras, espalhadas em pontos estratégicos da cidade como vias de acesso, escolas, patrimônio público e unidades de saúde. “Os equipamentos podem, por exemplo, registrar placas de veículos e fazer reconhecimento facial, além de câmeras com visão 360°. Um instrumento importante para identificar suspeitos e também ajudar na resolução de delitos”, informa.

O Delegado Denis Merino, da Polícia Civil de Medianeira, também reforça a importância da Central de Monitoramento. “Melhorou muito, porque nós temos que reconstruir um crime que já aconteceu, então uma imagem ajuda muito na questão de identificação e elucidação. Uma prova de imagem dá muito mais certeza do que um testemunho. Principalmente, para os crimes que mais preocupam a comunidade de todas as cidades, que são o furto e o roubo. O ideal é ter sempre mais”, reforça.

Nesse sentido, vale salientar a nova etapa do Programa Olho Vivo, que marcou o início da integração de tecnologias de Inteligência Artificial (IA) ao sistema estadual de videomonitoramento, lançada em dezembro do ano passado. Com um investimento de R$ 400 milhões, a ampliação representa um salto na capacidade de investigação e combate a ocorrências criminais, permitindo o cruzamento de dados em tempo real, a emissão automática de alertas e a identificação mais rápida de suspeitos, veículos furtados ou roubados e pessoas desaparecidas. Nesta etapa, o Olho Vivo inaugura um modelo de investigação assistida, no qual as câmeras deixam de depender exclusivamente do monitoramento humano. A partir da integração de sistemas inteligentes, será possível pesquisar características específicas de pessoas e veículos, rastrear rotas, consolidar informações de diversos pontos e emitir alertas automáticos às forças de segurança. Um projeto-piloto está em teste em Almirante Tamandaré desde agosto e agora será expandido para todas as 399 cidades.

De acordo com o secretário de Segurança Pública, Hudson Leôncio Teixeira, a tecnologia não substitui o trabalho dos agentes, mas expande significativamente a capacidade de monitoramento. Ele também enfatizou que a integração da rede estadual e municipais é um diferencial do Paraná.

O modelo de contratação prevê repasses a fundo perdido, via Secretaria das cidades (Secid), para que os municípios comprem as câmeras dentro das especificações técnicas estabelecidas pelo Estado, além da cessão dos softwares que garantem a integração completa da rede. Os municípios participarão da expansão mediante manifestação de interesse à Sesp, devidamente justificado a partir da realidade local, com auxílio dos órgãos estaduais. “O nosso projeto está na Secid. Para algumas já está sendo liberado e, segundo o governador, todas serão atendidas. Acredito que a autorização iniciou pelas cidades com os piores indicadores de segurança (número de registros de ocorrências)”, afirmou o prefeito França.

A Sesp definirá o número ideal de câmeras por cidade, levando em conta indicadores de criminalidade, fluxo de pessoas e áreas estratégicas, além de participar da definição dos pontos de instalação por meio das forças policiais locais e regionais.

Além das áreas urbanas, as câmeras também serão instaladas em rodovias devido ao sistema de reconhecimento de pessoas e placas, o que permitirá mais efetividade na busca e recuperação de veículos, criminosos com mandados de prisão em aberto e busca ativa de pessoas desaparecidas. A SGSD será responsável por integrar tecnologicamente os equipamentos à plataforma central, fornecida em uma parceria do Governo do Estado com a Google. O programa também contempla capacitação das equipes que irão operar o sistema.

O Capitão Gois, Comandante da 2º Companhia da Polícia Militar, que tem sede em Medianeira, fala da necessidade de se investir em tecnologia. “Como Comandante, é óbvio que eu quero o máximo de policiais, mas não conseguimos estar o tempo todo em todos os lugares e é nesse ponto que a tecnologia é fundamental”.

ESTRUTURA E REALIDADE – A segurança pública local se materializa principalmente por meio da atuação das forças estaduais, através da 2ª Companhia da Polícia Militar, que integra o 14º Batalhão da Polícia Militar (14º BPM), responsável pelo policiamento ostensivo no município e nas cidades de São Miguel do Iguaçu, Itaipulândia, Missal e Serranópolis do Iguaçu.

A Polícia Militar, subordinada ao Governo do Estado, é a força mais visível para a população. Seu papel é preventivo e imediato: patrulhar ruas e bairros, realizar abordagens, atender ocorrências e agir em situações de flagrante delito. Em Medianeira, o trabalho da 2ª Cia envolve desde o policiamento urbano e rural até ações educativas, operações de fiscalização e presença constante em locais estratégicos, com o objetivo de inibir a criminalidade e manter a ordem pública.

Já a Polícia Civil entra em cena após o crime. Também vinculada ao Estado, é responsável pela investigação criminal. Em Medianeira, cabe à Polícia Civil apurar delitos registrados no município, reunir provas, ouvir vítimas e testemunhas e elaborar os inquéritos que serão encaminhados ao Judiciário. Enquanto a PM atua na linha de frente, a Polícia Civil trabalha nos bastidores, buscando esclarecer crimes e identificar os responsáveis.

Sobre o aumento do número de ocorrências, segundo o Capitão Gois, a Polícia Militar está, a cada ano, atendendo mais. “Do ponto de vista específico, que talvez seja o que as pessoas têm falado muito, principalmente, em relação a roubos, tivemos sim uma pequena elevação aqui e na área de Foz do Iguaçu como um todo. Pontuamos isso, embora o Paraná apresente uma queda drástica. Do ponto de vista histórico, em 2025 aumentou em relação a 2024, mas em relação a 2023 reduziu. Então, acaba mantendo uma média, são níveis aceitáveis”, afirma.

No entanto, o Comandante da PM completa que é muito complexo falar em números, porque o cidadão não está preocupado só com dados. “Entendemos que cada roubo que aconteceu é uma vítima, é uma pessoa, isso importa para nós. Mas, por outro lado, a gente também tem que trabalhar com números e com estatística para atuar de forma técnica”.
A constatação de estabilidade também foi confirmada pelo Delegado da Polícia Civil, Denis Merino. “Em números absolutos o número de ocorrências está estável há anos. É bastante sazonal. Talvez a forma como os crimes aparecem nos grupos gere nas pessoas uma sensação de falta de segurança”, pontua.

Sobre a estrutura existente, tanto o Capitão Gois como o Delegado Denis Merino, afirmam que poderia melhorar, mas mencionam a questão estrutural.

No caso da Polícia Militar, Medianeira dispõe, além da Rádio Patrulha, da Rotam, Patrulha Rural e Patrulha Maria da Penha. “Esses são os que a comunidade mais vê. Além disso, também têm equipes que atuam na área de Inteligência, com levantamento de informações, câmeras de segurança e drones. Existe defasagem de efetivo, mas melhoramos muito, e isso depende de quem está no poder. Na gestão do governador Ratinho Junior, foram realizados dois concursos públicos e tem mais um em andamento, mas é um processo demorado e todos os anos têm policiais que se aposentam”.

Sobre a equipe da Polícia Civil, Merino afirma que quanto mais efetivo melhor, e nesse sentido Medianeira ganhou um reforço importante neste ano, com a chegada da Delegada Isadora Leão, somando-se ao Delegado Denis Merino. Sobre o trabalho desde que assumiu, Isadora comenta: “Não é uma divisão definitiva, mas provisória, de que o Denis vai seguir a frente das investigações de crimes com violência e grave ameaça e eu irei ficar com violência doméstica e vulneráveis. Eu espero colaborar, melhorar o atendimento e, com a estrutura que temos, criar um ambiente mais acolhedor para receber as vítimas. Além de dar uma resposta mais rápida, porque são todas situações que exigem urgência”, finaliza a nova delegada.

Na próxima edição, reportagem especial sobre a implantação de um Batalhão da Polícia Militar em Medianeira: viabilidade e desafios.

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