Quando a crueldade anuncia a ausência de remorso
Por Camyle Hart . 12 de fevereiro de 2026 . 14:06
O caso do cão Orelha chocou o país, mas ele vai além de um episódio isolado de violência contra um animal. Casos assim nos obrigam a encarar uma questão incômoda: a violência extrema raramente surge do nada. Ela costuma dar sinais claros desde cedo.
Na psicologia, tanto as abordagens comportamentais quanto a psicologia junguiana apontam que a empatia é um eixo central da constituição psíquica. Jung afirmava que o desenvolvimento ético passa pela capacidade de reconhecer o outro como semelhante. Quando isso não acontece, não há conflito interno nem culpa.
Do ponto de vista comportamental, a literatura científica é direta: crueldade repetida contra animais na infância é um dos principais indicadores de traços psicopáticos. Não se trata de rebeldia ou curiosidade infantil, mas de um padrão que envolve ausência de empatia, ausência de remorso e indiferença diante do sofrimento do vulnerável.
É preciso dizer algo que ainda gera desconforto social: não existe “ex-psicopata”. A psicopatia não é um trauma que se resolve com amadurecimento ou afeto tardio. Muitos pesquisadores defendem que a pessoa já nasce com essa estrutura psíquica. O que pode ocorrer ao longo da vida é o aprendizado de regras e limites externos, não a construção interna da culpa.
Quando uma criança machuca um animal sem demonstrar qualquer incômodo emocional, o alerta é claro. Animais representam a vulnerabilidade absoluta. Ferir quem não pode se defender costuma ser o primeiro ensaio de uma relação fria com o outro.
Tratar esses comportamentos como “fase”, “brincadeira” ou “falta de limites” é uma forma perigosa de negação. A infância não mente. Ela revela quando algo essencial não está sendo constituído.
O caso do cão Orelha nos obriga a ir além da indignação momentânea e da punição imediata. A pergunta que permanece é simples: Em que momento isso começou a ser visível e quem escolheu não enxergar?



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