Cidades

PSICOLOGIA DO ESPORTE

O futebol como linguagem universal

Da infância às Copas do Mundo, o esporte fortalece o sentimento de pertencimento, cria memórias afetivas e ensina que as derrotas também fazem parte da trajetória de quem aprende a recomeçar

A cada quatro anos, a Copa do Mundo transforma a rotina de milhões de pessoas. Ruas ganham as cores da bandeira, famílias se reúnem diante da televisão e até quem pouco acompanha futebol passa a torcer pela Seleção Brasileira. O fenômeno, que ultrapassa fronteiras e culturas, tem uma explicação psicológica: o futebol desperta um sentimento coletivo de pertencimento e identidade.
Segundo o psicólogo Felipe Sbardelotto Longo, pós-graduado em Psicologia do Esporte e do Exercício, a força do futebol está justamente na capacidade de unir pessoas em torno de um objetivo comum. “Com tantos torcedores vendo e torcendo pelo mesmo time, isso atrai até mesmo quem nunca assistiu a uma partida. É como um ritual, em que as diferenças políticas, econômicas e sociais ficam em segundo plano. Nesse momento, todos compartilham uma identidade coletiva: somos torcedores brasileiros.”
Esse sentimento, explica o especialista, começa muito cedo. O futebol costuma ser apresentado dentro da própria família, passando de geração em geração como uma herança afetiva. Pais, avós e responsáveis transmitem não apenas a paixão por um clube ou pela Seleção, mas também experiências que permanecem na memória ao longo da vida. “Quando torcemos pela Seleção, nosso cérebro reage como se estivéssemos dentro de campo. Compartilhamos as mesmas alegrias, tensões e expectativas dos jogadores. É essa sensação de pertencimento que faz com que a Copa seja vivida de forma tão intensa”, afirma.
As lembranças construídas durante os Mundiais também ajudam a explicar essa conexão emocional. Muitas pessoas recordam exatamente onde estavam em uma final, com quem assistiram aos jogos ou como celebraram uma conquista. “Praticamente toda cidade brasileira já foi decorada para uma Copa. São experiências que acabam fazendo parte da memória afetiva das famílias e das comunidades”, destaca.
A DERROTA TAMBÉM FAZ PARTE DO JOGO – Se as vitórias aproximam as pessoas, as eliminações também provocam emoções profundas. Para Felipe Sbardelotto Longo, quanto maior a expectativa, maior tende a ser o sentimento de frustração diante de um resultado negativo. “Lidar com a tristeza faz parte da vida. Muitas pessoas tentam substituí-la pela raiva, mas ela precisa ser acolhida e compreendida para ser superada. A tristeza é o preço por ter acreditado intensamente em um final feliz”, explica.
Na avaliação do psicólogo, é justamente nesse momento que o esporte oferece uma de suas maiores lições. Grandes atletas não são aqueles que nunca erram, mas os que conseguem aprender com as derrotas e seguir em frente. “O melhor jogador do mundo também perde. O diferencial está na resiliência, na capacidade de aprender com a dor, buscar melhorar e tentar novamente. O jogo só acaba com o apito final, antes disso ainda tem partida.”
O mesmo vale para os torcedores. Embora a eliminação gere decepção, ela não deve definir a vida das pessoas. “É importante viver o luto esportivo, mas lembrar que a nossa história vai muito além de uma Copa do Mundo. Temos outros sonhos, projetos e conquistas capazes de despertar a mesma alegria de uma grande vitória.”
Afinal, como lembra o especialista, perder faz parte do esporte e da vida. Independente do jogo, se ganhamos ou perdemos, temos que extrair informações dessa experiência, para replanejar daqui para frente. “Pensando em especial sobre essa Copa de 2026, a comissão técnica tem informações cruciais sobre os atletas e suas falhas, que podem virar pontos a serem trabalhados para 2030, no próximo Mundial. Já conquistamos cinco títulos mundiais e teremos novas oportunidades. A derrota pode ser encarada como aprendizado e motivação para recomeçar, dentro e fora dos gramados”, finaliza Felipe.

Para a Psicologia do Esporte, torcer pela Seleção desperta um sentimento de pertencimento que une milhões de brasileiros e faz do futebol uma verdadeira linguagem universal

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