Política

ELEIÇÕES 2026

Voto: o que devemos considerar antes de escolher um candidato

Em ano eleitoral, compreender diferenças ideológicas, trajetória dos candidatos, partidos, alianças e o próprio comportamento do eleitor pode ajudar a transformar o voto em uma escolha mais consciente  

Para Vera Viviane Schmidt Abomorad, Dra. em Ciência Política (USP), política não pode ser reduzida ao embate entre grupos. “Falar de política é sempre interessante, pois ela não se resume ao embate partidário, é a ciência da convivência e o alicerce das cidades, estados e países”, salienta

No próximo domingo, 04 de outubro, os brasileiros irão às urnas para escolher deputados estaduais, deputados federais, senadores e, em primeiro turno, governador e presidente da República. Se houver segundo turno, a votação acontece em 25 de outubro.

O processo eleitoral envolve mais do que a escolha de nomes, significa compreender o que esses candidatos representam, quais ideias defendem, quais partidos os sustentam, quais alianças estabelecem e, principalmente, o que o histórico de cada um revela sobre sua atuação.

Em um cenário marcado pela polarização política, falar sobre direita e esquerda, coerência, mudanças de partido e critérios para o voto tornou-se também uma forma de refletir sobre o próprio papel do eleitor. Afinal, será que sabemos o que estamos considerando quando escolhemos um candidato?

Para Vera Viviane Schmidt Abomorad, Dra. em Ciência Política (USP),  política não pode ser reduzida ao embate entre grupos. “Falar de política é sempre interessante, pois ela não se resume ao embate partidário, é a ciência da convivência e o alicerce das cidades, estados e países”. Por isso, segundo ela, informar-se é parte fundamental do processo eleitoral.

DIREITA E ESQUERDA AINDA FAZEM SENTIDO? Apesar das transformações no cenário político, os conceitos de direita e esquerda continuam sendo referências importantes para compreender diferentes visões sobre o papel do Estado e da sociedade.

“De forma bem sucinta, e falando em termos gerais, podemos dizer que, para a Esquerda, o principal objetivo do poder público é dirimir a desigualdade social, e garantir acesso a direitos essenciais como alimentação, saúde, educação, moradia, ainda que para isso seja necessário um Estado maior, mais burocrático e que cobre mais impostos em uma economia mais regulada”.

Do outro lado, explica, “a Direita geralmente governa com prioridades como o respeito à propriedade privada, a valorização da meritocracia individual, segurança e liberdade de mercado, visando um Estado menor, e com menos impostos”.

A diferença, entretanto, não aparece da mesma maneira em todos os contextos. Em países com sistemas bipartidários, como Reino Unido e Estados Unidos, a divisão tende a ser mais evidente. No Brasil, onde existe um sistema multipartidário, a dinâmica é mais complexa.

Especialmente em municípios menores, a escolha do eleitor pode estar muito mais relacionada a questões práticas do cotidiano do que a uma identificação ideológica estruturada. “No Brasil atual, multipartidário, em municípios menores o eleitor tende a votar mais por pragmatismo (a busca por obras e serviços locais) do que por ideologia estruturada da divisão ideológica de direita ou esquerda”, explica Vera.

Nas eleições majoritárias, porém, essa divisão aparece com maior intensidade, especialmente em temas relacionados ao papel do Estado na economia e, mais recentemente, às chamadas pautas de costumes e valores morais.

É PRECISO ESCOLHER UM LADO? Não necessariamente.Um eleitor pode defender ideias tradicionalmente associadas à direita e, ao mesmo tempo, concordar com propostas identificadas com a esquerda. Segundo a cientista política, esse comportamento é comum.“É perfeitamente possível e, de fato, é o comportamento majoritário do eleitor mediano”.

Um exemplo seria defender a privatização de empresas estatais em busca de maior eficiência e, simultaneamente, apoiar programas de transferência de renda ou políticas de construção de moradia popular. Para ela, isso não representa necessariamente contradição. “Isso diz que o eleitor brasileiro é profundamente pragmático”.

O cidadão pode desejar saúde pública gratuita e de qualidade e, ao mesmo tempo, defender menos burocracia para abrir uma empresa ou menos impostos sobre determinados produtos. “Não se trata de uma confusão mental, mas de uma visão plural, e muitas vezes utilitária, da política”, destaca Vera.

COERÊNCIA NÃO SIGNIFICA NUNCA MUDAR – Outro ponto importante para o eleitor é compreender o que significa coerência política.Mudar de opinião não significa necessariamente ser incoerente. Para a cientista política, a coerência está mais relacionada à relação entre o discurso, os compromissos assumidos e as atitudes tomadas ao longo do tempo.“A coerência política não é a teimosia em manter uma opinião para sempre, mas sim a previsibilidade de um político frente aos seus compromissos”.

Mudanças podem ocorrer diante de novos fatos, novas tecnologias ou transformações sociais. Nesses casos, explica, rever uma posição pode representar maturidade intelectual. “A incoerência real se dá quando a mudança de posicionamento fere frontalmente os princípios que o político prometeu defender apenas para obter vantagens pessoais ou cargos momentâneos”.

Por isso, o eleitor precisa observar não apenas se um candidato mudou de posição, mas por que mudou. Mudanças justificadas por novos dados, contextos ou acontecimentos relevantes tendem a ser acompanhadas de explicações públicas. Já mudanças abruptas e silenciosas, especialmente próximas às eleições ou associadas a vantagens políticas, exigem maior atenção.

Uma das formas de verificar isso é comparar o discurso do candidato com sua atuação concreta: o que publica, o que defende e, quando se trata de um parlamentar, como efetivamente vota.

E QUANDO O POLÍTICO TROCA DE PARTIDO? A troca de legenda também pode fazer parte da trajetória política e merece ser analisada com cuidado.

O Brasil possui um sistema partidário bastante fragmentado. Por isso, segundo Vera, o eleitor deve observar principalmente a distância ideológica entre o partido antigo e o novo, além da coerência do político com sua base de apoio.

Mais do que simplesmente perguntar se houve troca de partido, é importante verificar se “a nova legenda respeita o conjunto de ideias que o candidato sempre defendeu e se ele ainda terá espaço neste novo partido para implantar o que prometeu”, salienta a cientista política.

Mas existe também uma dimensão jurídica nessa questão. Segundo ela, no sistema proporcional brasileiro, o mandato está vinculado ao partido, e existem regras específicas para a fidelidade partidária. A legislação estabelece situações consideradas justificativas para a mudança de legenda sem perda do mandato, como a criação de um novo partido, desvio ou grave mudança no programa ideológico da legenda ou grave discriminação política pessoal. Também existe a chamada janela partidária, período específico em que determinadas mudanças de legenda podem ocorrer sem caracterizar infidelidade.

Assim, uma troca partidária não deve ser analisada apenas pelo aspecto político. Há também regras eleitorais que determinam quando a mudança é permitida e quando pode haver consequências para o mandato.

ALIANÇAS: INCOERÊNCIA OU NECESSIDADE? Outro ponto que costuma gerar dúvidas é a formação de alianças entre grupos políticos que possuem posições ideológicas diferentes.

Para Vera Viviane Schmidt Abomorad, é importante compreender como funciona o presidencialismo de coalizão brasileiro. Governos precisam construir maioria e negociar com diferentes forças políticas para conseguir governar. “Alianças com grupos diferentes não são, por si só, um defeito, são a engrenagem da nossa democracia, e para isto são necessárias concessões”. A questão, portanto, não é simplesmente identificar se existe uma aliança, mas entender o que foi negociado e quais compromissos estão envolvidos. “O eleitor deve interpretar as alianças analisando quem dita as regras do acordo”.

De acordo com ela, uma aliança pode envolver concessões e ainda preservar o núcleo das propostas apresentadas ao eleitor. O problema surge quando os compromissos assumidos durante a campanha são abandonados em troca de vantagens políticas. “A aliança deve ser um pacto de governança, não um balcão de negócios”.

CANDIDATO, PARTIDO OU ALIANÇAS? Na hora de votar, o que deve pesar mais?

Para a cientista política, não existe apenas um elemento a ser considerado. Ela propõe uma avaliação em três dimensões. Primeiro, o conjunto de ideias e o histórico do candidato. Depois, o partido. Por fim, as alianças. “O eleitor deve olhar primeiro para o conjunto de ideias e o histórico do candidato (competência, ficha limpa e propostas). Segundo, para o partido, pois no legislativo o candidato votará seguindo a orientação do líder partidário; de nada adianta um bom candidato num partido que vota contra o que você acredita. E terceiro, para as alianças, pois elas revelam quem estará governando junto com esse candidato caso ele seja eleito para o executivo”, esclarece.

A análise do partido ganha importância principalmente nas eleições legislativas, já que a atuação parlamentar está inserida na dinâmica partidária e nas orientações das respectivas bancadas.

O PASSADO PODE DIZER MUITO SOBRE O FUTURO – Entre promessas de campanha, discursos e propostas, existe outro elemento que pode ajudar o eleitor: a trajetória.“O elemento mais forte preditor do comportamento futuro de um político é o seu comportamento passado”, ressalta Vera.

Para quem já ocupou um cargo público, isso significa observar como votou, como se posicionou diante de temas controversos, quais compromissos assumidos anteriormente foram cumpridos e como foi sua atuação política e profissional.

As propostas continuam sendo importantes porque ajudam a compreender o projeto de futuro apresentado pelo candidato. Mas, segundo a cientista política, o histórico ajuda a verificar se existe capacidade concreta de transformar discurso em ação.

QUANDO A POLÍTICA VIRA TORCIDA – Talvez um dos maiores desafios atuais seja separar a identidade pessoal da escolha eleitoral.

A polarização pode fazer com que o adversário deixe de ser visto simplesmente como alguém que possui ideias diferentes e passe a ser tratado como um inimigo. Nesse cenário, o eleitor corre o risco de aceitar ou justificar comportamentos de seu próprio candidato apenas para impedir a vitória do outro lado.

Para evitar essa armadilha, a recomendação é manter o espírito crítico. Isso significa reconhecer acertos de adversários e, principalmente, cobrar também aqueles em quem se votou. “O político é um funcionário público temporário, contratado por meio das urnas para gerenciar recursos coletivos, e não um salvador da pátria ou um chefe moral de uma nação”, alerta a cientista política.

A democracia, portanto, não termina no momento em que o voto é depositado. O acompanhamento posterior também faz parte do processo.

TRÊS PERGUNTAS ANTES DE VOTAR – Como síntese, Vera propõe três perguntas para o eleitor fazer antes de escolher um candidato:1. A biografia e as ações passadas deste candidato provam que ele tem competência e honestidade para cumprir o que está prometendo hoje?2. Os grupos de apoio e o partido que dão suporte a este candidato defendem o mesmo projeto de sociedade que eu desejo para a minha cidade/ estado/ país?3. Busco me informar em fontes de informação legítimas antes de aprovar ou rejeitar candidatos?

No fim, a escolha eleitoral passa por uma combinação de informação, análise e responsabilidade. Mais do que identificar um lado político ou escolher alguém com quem se concorda integralmente, o desafio é conhecer quem está pedindo o voto, compreender o que representa e acompanhar sua atuação depois da eleição.

Como resume a própria cientista política: “A qualidade da nossa democracia em Medianeira, no Paraná e no Brasil depende diretamente da qualidade da informação de que dispomos e de nossa disponibilidade em acompanhar e cobrar nossos eleitos”, finaliza a cientista política.

CIDADANIA ATIVA

Antes de votar, pesquise

Informação também faz parte da escolha. Confira onde buscar dados sobre candidatos, partidos e atuação política.

🔎 CANDIDATOS E ELEIÇÕES

DIVULGACANDCONTAS — TSE

Consulte candidaturas, bens declarados, propostas e situação jurídica dos candidatos.

Acesse: divulgacandcontas.tse.jus.br

🏛️ DEPUTADOS E SENADORES

CÂMARA DOS DEPUTADOS

Acompanhe o perfil dos deputados, proposições, votações e atuação parlamentar.

Acesse: camara.leg.br/deputados

SENADO FEDERAL

Consulte atividade parlamentar, proposições e gastos dos senadores.

Acesse: senado.leg.br

🏛️ POLÍTICA NO PARANÁ

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO PARANÁ — ALEP

Acompanhe a atuação dos deputados estaduais, projetos e votações.

Acesse: assembleia.pr.leg.br

🏙️ E NO SEU MUNICÍPIO?

CÂMARA MUNICIPAL E PORTAL DA TRANSPARÊNCIA

Procure os canais oficiais da sua cidade para acompanhar projetos, votações e a atuação dos vereadores, além de informações de transparência.

Em Medianeira: consulte os canais oficiais do Legislativo Municipal e o Portal da Transparência.

⚖️ PARA ENTENDER AS REGRAS

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL — TSE

Consulte a legislação eleitoral e partidária, incluindo o Código Eleitoral, a Lei dos Partidos Políticos e a Lei das Eleições.

Acesse: tse.jus.br/legislacao

ANTES DE APERTAR “CONFIRMA”, PERGUNTE:

Quem é esse candidato além do discurso de campanha?

O que ele já fez e como se posicionou quando teve mandato?

O partido ao qual pertence representa ideias próximas das que defendo?

Quem são seus aliados e quais compromissos existem nessas alianças?

Estou tomando minha decisão a partir de informações confiáveis?

    VOTO INFORMADO NÃO É VOTO SEM DÚVIDAS. É VOTO COM INFORMAÇÃO.

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