A Morte, essa Amiga Silenciosa
In memoriam de Paulo Hart e Victor Hugo
Por Camyle Hart . 16 de outubro de 2025 . 13:57
Este foi um ano de despedidas e de conhecer mais de perto esta amiga pouco falada, pouco desejada: a morte. Há quem a veja como uma inimiga, aquela que chega sorrateira para nos tomar o que mais amamos. Mas talvez tenhamos compreendido tudo ao contrário. Talvez ela seja, na verdade, uma grande amiga — discreta, compassiva — que aparece quando o corpo e a alma já pedem descanso. Ela não vem punir, vem aliviar… como um gesto final de ternura da vida sobre si mesma.
Para quem sofre, a morte pode ser o bálsamo do retorno. A respiração que se alonga e, enfim, se entrega. Jung dizia que a alma humana é antiga e que cada existência é apenas uma de suas estações. Quando o inverno chega, não é o fim, mas apenas o tempo da pausa, do recolhimento, do silêncio fértil que antecede uma nova primavera. Assim também é a morte: um retorno à matriz do mistério.
Desde o nascimento, ela nos acompanha como sombra. Sentada no canto da sala, observa-nos com ternura, sabendo que um dia voltaremos ao seu colo. Não há pressa, nem ameaça, apenas um convite amoroso ao descanso. E quando ela estende sua mão, é para recolher o cansaço, o medo, a dor que a vida às vezes impõe com tanto peso.
Aqueles que partiram talvez apenas tenham aceitado antes o convite da amiga antiga. Talvez tenham ouvido o chamado suave que diz: “Vem, a dor acabou, é hora de descansar.” E nesse gesto invisível, a alma se desamarra do tempo e do espaço e reencontra sua leveza.
A morte, afinal, não é a negação da vida, mas sua guardiã. É ela quem dá forma ao milagre de existir, quem nos ensina a valorizar o agora, a amar com urgência, a ser inteiro. Quando compreendemos isso, deixamos de temê-la. Passamos a reconhecê-la como uma presença de amor — a que recolhe o sofrimento, fecha suavemente os olhos e sussurra: “Agora, tudo está em paz.”



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