A Morte no Horizonte
Por Camyle Hart . 24 de julho de 2025 . 11:21
Falar da morte é tocar uma ferida aberta na alma coletiva. Vivemos em uma cultura que nega o fim, que valoriza a juventude eterna e que evita pronunciar o nome da morte como se fosse um feitiço perigoso. No entanto, ela está entre nós o tempo todo: silenciosa, presente, inegociável. Quando ela leva alguém que amamos, somos empurrados para um território sombrio que Jung chamaria de encontro com a Sombra — aquele aspecto de nós mesmos que preferimos não ver, mas que contém as sementes da nossa transformação mais profunda.
Na psicologia junguiana, o luto é um processo psíquico arquetípico. Ele nos atravessa como uma lança iniciática, obrigando-nos a confrontar a perda não apenas do outro, mas de partes de nós que existiam apenas na relação com esse outro. Quem fica precisa reconstruir-se, não raras vezes, a partir dos escombros.
O luto em seu significado mais profundo não tem prazo. Não cabe em fases lineares. Ele é circular, espiralado, cheio de idas e voltas, silêncios e gritos, saudades e culpas. Jung nos lembra que é no enfrentamento com o sofrimento que a alma amadurece. Não há individuação — esse caminho em direção à totalidade psíquica — sem dor, sem perda, sem morte.
Por isso, patologizar o luto ou tentar apressá-lo é violentar um processo sagrado. O enlutado precisa de escuta, não de fórmulas. Precisa de presença, não de frases prontas. Precisa ser acolhido em sua escuridão para, eventualmente, reencontrar alguma luz — não igual à de antes, mas nova, nascida da própria travessia.
A morte desorganiza, mas também reorganiza. Revela o que importa, retira os véus, coloca-nos diante da finitude e daquilo que Jung chamaria de Self: a centelha divina que permanece quando tudo o mais se desfaz. O luto, assim, pode ser um chamado da alma — não para esquecer, mas para integrar. Não para superar, mas para transformar.



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