C

Café Analítico

Sobre o encontro de ‘si mesmo’

PUBLICIDADE

Jung dizia que há um momento da vida, lá pelo meio do caminho, em que sentimos grande angústia, algo nos tira o sossego. Quando já construímos nossas relações interpessoais, as estruturas ao redor e voltamos para o nosso mundo interior em busca de um resgate do que foi abandonado e ficou às margens em prol das realizações do Ego.

É o início do processo de individuação. Quando temos a necessidade de saber quem somos, qual a nossa finalidade, a nossa essência, o que verdadeiramente nos representa e nos faz estarmos em paz, em harmonia e sintonia com o todo.  É o início da busca do ‘si mesmo’. É a queda das máscaras.

Deste momento em diante nossas almas passam a gritar por nós mesmos.  Olhamos no espelho e queremos ver a nossa verdadeira face. É aí que nos tornamos indivíduos e nos separamos, enquanto ser, dos demais à nossa volta. Não é um isolamento, mas a busca do entendimento do que nos faz sermos unos. O que vemos deve ser o que nos representa. Falsas imagens passam a pesar em nossas costas e se manifestam em forma de doenças físicas e mentais.

Khalil Gibran retrata perfeitamente este momento através de um lindo conto:

Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim: Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua. Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco. E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

PUBLICIDADE

LEIA NOSSAS COLUNAS

Café Analítico

Por: Camyle Hart

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa em 1999, atuando por 15 anos na área, em diversos veículos de comunicação do Paraná. Pós-graduada em Comunicação e Mercado na Era Digital.
Formada em Psicologia pela Faculdade Anglo Americano – Foz do Iguaçu, especializando-se em psicologia Junguiana. Atualmente, mantém uma coluna sobre saúde mental nos jornais Nossa Folha e O Mensageiro, ambos de Medianeira. Mantém um blog sobre temas da psicologia e atua como psicoterapeura, no contexto ‘home care’(domiciliar) e online.

Comentários