Especial

DIA DOS PAIS

As lições que permanecem

Valores, exemplos e memórias moldam a vida dos filhos muito além da infância

Existem lembranças que o tempo não apaga. Algumas têm o som de um conselho repetido ao longo da infância. Outras vivem em pequenos gestos: a maneira de enfrentar um problema, o respeito pelas pessoas, a honestidade nas escolhas ou o abraço depois de um dia difícil. São essas memórias que ajudam a construir quem somos e continuam presentes muito depois que crescemos.
É sobre esse legado invisível que trata esta reportagem especial do Dai dos Pais. O Jornal Mensageiro reuniu histórias de filhos que carregam consigo os ensinamentos dos pais e ouviu a psicoterapeuta Camyle Hart para compreender por que as atitudes têm um impacto muito maior do que as palavras na formação de uma pessoa. “Os pais costumam acreditar que educam quando corrigem. Mas a educação começa muito antes da correção. A criança passa anos observando quem os pais são quando ninguém está ensinando nada”, explica Camyle. Segundo ela, é nesse cotidiano, quase imperceptível, que os filhos aprendem como amar, lidar com as perdas, enfrentar dificuldades e se relacionar com as pessoas.
Essa percepção aparece de forma clara na história da assistente de Comunicação e Marketing da Sicredi Vanguarda, Fabíula Taís Rodrigues Marcão. Ao falar do pai, ela não destaca um único conselho, mas a maneira como ele encara a vida. “Meu pai me ensina todos os dias, principalmente pela força com que enfrenta as situações do dia a dia. Aprendi com ele a honrar o trabalho como caminho para conquistar independência, a valorizar as pessoas e construir amizades verdadeiras.” Entre tantos ensinamentos, um permanece como bússola para suas decisões: seguir um passo de cada vez. “Ele sempre dizia para dar o passo conforme a perna alcança, sem querer abraçar algo maior do que as possibilidades. Isso me ensinou responsabilidade, equilíbrio e consciência”, conta Fabíula.
Para a psicoterapeuta Camyle Hart, isso acontece porque o cérebro infantil aprende observando muito antes de compreender racionalmente. “O exemplo pesa muito mais que o discurso. Um pai pode repetir cem vezes que o respeito é importante. Mas, se trata as pessoas com arrogância, é essa arrogância que será registrada”, reforça.
A honestidade também aparece como uma das heranças mais marcantes para a advogada Keli Cristina Antonio. “Meu pai me ensinou que o trabalho deve ser honesto, que devemos sempre escolher o caminho correto, cumprir aquilo que prometemos e tratar todas as pessoas da mesma forma.” Mas é outra lição que ela considera decisiva nos momentos difíceis. “A maior lição foi nunca desistir. Apesar das dificuldades que enfrentou, meu pai sempre seguiu em frente. Essa força me carregou em muitas fases difíceis. Ele me deu raiz e força”.
Segundo a psicoterapeuta, é justamente essa coerência entre discurso e atitude que fortalece a formação dos filhos. “A criança percebe rapidamente quando existe distância entre aquilo que os pais defendem e aquilo que praticam. Sem perceber, muitos pais ensinam que princípios são negociáveis. Essa talvez seja uma das lições mais silenciosas que uma família pode transmitir”.
O gerente executivo do Senac Medianeira, Junior Moisés Rosso, também identifica no pai um modelo que ultrapassa as palavras. “O maior ensinamento que recebi foi que as melhores decisões são tomadas com calma, prudência e, acima de tudo, com ética e honestidade. O caráter é o nosso maior patrimônio.” Ao falar sobre o maior legado recebido, ele amplia o olhar para aquilo que realmente importa. “A felicidade não está na quantidade de bens que acumulamos, mas na qualidade das relações que cultivamos. Meu pai me ensinou que nosso maior patrimônio é a família e que os momentos vividos ao lado das pessoas que amamos têm um valor que dinheiro nenhum pode comprar”, salienta Junior.
Na avaliação de Camyle Hart, a personalidade também nasce dessas experiências cotidianas. “A forma como uma criança é olhada, escutada e acolhida se transforma, aos poucos, na maneira como ela aprenderá a olhar para si mesma. Muitas vezes, encontramos adultos tentando conquistar um amor que sentiram faltar na infância”.
Para o diretor do Departamento de Cultura de Medianeira, Cristiano Brod, o exemplo do pai sempre esteve associado à perseverança. “Entre os muitos ensinamentos que recebi, um orienta todas as minhas decisões: nunca desistir. Meu pai sempre dizia: ‘Siga sempre em frente’”. Cristiano afirma que essa mensagem o ajudou a compreender que os desafios fazem parte do crescimento. “A maior lição que ele nos deixou foi sermos pessoas justas, cordiais e fazermos tudo com amor e sinceridade. Seu maior legado será sempre a fé com que ele e minha mãe construíram nossa família. Esse exemplo continuará inspirando as próximas gerações”, ressalta.
Ao explicar por que lembramos mais das atitudes do que das palavras, Camyle resume aquilo que une todos esses depoimentos. “Palavras passam pela razão. Atitudes atravessam o afeto. Quase ninguém se lembra de todos os conselhos que ouviu na infância, mas todos recordam como eram recebidos quando erravam, quando choravam ou quando precisavam de acolhimento. É essa memória emocional que constrói nossa identidade.” Por isso, ela deixa uma reflexão aos pais. “Talvez a pergunta mais importante não seja: ‘O que estou ensinando ao meu filho?’, mas: ‘Quem meu filho está aprendendo que eu sou?’. No fim, os filhos herdam muito menos os nossos discursos do que a forma como existimos no mundo”, finaliza a psicoterapeuta.
É justamente aí que mora a maior herança. Ela presente na honestidade de quem escolhe o caminho certo, na coragem de quem insiste depois de um “não”, na serenidade diante das dificuldades, na importância dada à família e na fé que sustenta a caminhada. Legados invisíveis, mas permanentes. Aqueles que, silenciosamente, continuam vivendo dentro dos filhos muito depois que eles deixam de caminhar ao lado de seus pais.

A nossa personalidade também nasce das experiências cotidianas. “A forma como uma criança é olhada, escutada e acolhida se transforma, aos poucos, na maneira como ela aprenderá a olhar para si mesma”, afirma a psicoterapeuta Camyle Hart
São as memórias que ajudam a construir quem somos e continuam presentes muito depois que crescemos

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