Especial

DIA DA AGRICULTORA

Ela voltou para casa para colher o sonho que plantou na infância

Ao desafiar a ideia de que a sucessão da propriedade deveria ficar nas mãos de um homem, Rejane Cassol transformou resistência em confiança e descobriu que seu verdadeiro destino sempre esteve na terra onde nasceu

Alguns sonhos não desaparecem com o tempo. Apenas esperam a hora certa para florescer. Quando deixou a fazenda da família, aos 16 anos, Rejane Cassol acreditava que seu futuro estava longe dali. Mudou-se para a cidade, formou-se em Direito, construiu uma carreira e viveu por muitos anos uma realidade distante da agricultura. Mas havia algo que nunca deixou de acompanhá-la: a lembrança da menina que cresceu vendo o pai preparar a terra e a mãe dividir com ele o trabalho de cada dia.
Sem perceber, era ali que seu propósito já estava sendo cultivado. “Sempre admirei o trabalho dos meus pais. Meu pai sempre foi agricultor e minha mãe ajudava em tudo. Foi assim que nasceu minha paixão pela agricultura”, recorda.
Anos mais tarde, foi justamente o pai quem lhe fez um convite que mudaria sua história. Precisando de ajuda na gestão financeira da propriedade, pediu que a filha voltasse para a fazenda. O que parecia uma colaboração temporária transformou-se em uma missão de vida.
Enquanto organizava contas e analisava números, Rejane começou a enxergar novas possibilidades para a propriedade. Percebeu que era possível modernizar processos, melhorar a gestão e tornar a fazenda ainda mais forte. Mas sabia que nenhuma mudança aconteceria da noite para o dia. Afinal, além dos desafios naturais da agricultura, havia outro obstáculo silencioso: a crença de que o comando da fazenda deveria permanecer nas mãos de um homem.
A resistência apareceu. Veio de familiares e de pessoas acostumadas a enxergar a sucessão rural como um papel exclusivamente masculino. Ela escolheu responder da única forma que acreditava ser capaz de mudar aquela realidade: trabalhando. “Quando fazemos nosso trabalho com amor, conquistamos a confiança das pessoas. Ela não chega de um dia para o outro. É construída todos os dias”.
Em vez de impor decisões, preferiu ouvir. Antes de transformar, buscou compreender. Caminhou pela propriedade, conversou com os colaboradores, observou a rotina e respeitou a experiência acumulada pelo pai ao longo de décadas. Só então começou a plantar as mudanças. “Ao invés de impor regras, tentei entender como a fazenda funcionava. Depois fomos implementando novas estratégias, sempre juntos, ouvindo uns aos outros e entendendo o que era possível fazer”. A confiança veio no mesmo ritmo em que a lavoura ensina suas maiores lições: sem pressa.
Hoje, nove anos depois de assumir a gestão da fazenda, Rejane Cassol olha para trás com a tranquilidade de quem sabe que fez a escolha certa. Ao lado do marido Daniel Martins, engenheiro agrônomo, profissionalizou a parte técnica da produção, implantou um planejamento mais criterioso para a escolha dos insumos, reorganizou as funções da equipe e investiu na modernização das máquinas. Mudanças que aumentaram a eficiência da propriedade, mas que só foram possíveis porque nasceram do diálogo, e não da imposição.

Rejane Cassol voltou à fazenda da família para ajudar o pai e acabou transformando a propriedade, provando que competência, diálogo e amor pela terra são capazes de romper antigas barreiras


Para ela, liderança nunca significou mandar. Significou construir junto. Mas, entre todas as conquistas, nenhuma supera aquela que guarda desde menina. “Tenho orgulho de ter me permitido voltar à minha essência. Desde criança meu sonho era estar aqui. Hoje vejo tudo o que construímos e percebo que esse trabalho também transforma a vida de tantas outras pessoas que dependem da fazenda”.
A transição da antiga profissão para o campo não foi simples. Houve dúvidas, insegurança e desafios. Foi preciso reaprender uma rotina completamente diferente daquela que havia construído durante tantos anos. Foi também nesse período que descobriu o valor da resiliência. E, diariamente, continua aprendendo com quem primeiro lhe ensinou a amar a terra. “Meu pai me ensina todos os dias a ter paciência e entender que tudo tem o seu tempo”, salienta. Talvez seja justamente essa a maior semelhança entre a agricultura e a vida. Nenhuma colheita acontece antes da hora.
Ao ser perguntada sobre a palavra que melhor define o campo, Rejane responde sem hesitar: “Deus”. Para ela, a agricultura é uma parceria permanente entre o esforço humano e a providência divina. “Nós fazemos nossa parte, usamos tecnologia, planejamento e produtos de qualidade. Mas quem determina a produção é Deus. É Ele quem envia a chuva e o sol no tempo certo”
Sua história mostra que o futuro do campo também passa pelas mãos das mulheres. Mãos que administram, inovam, lideram e preservam o legado construído por gerações.
No Dia do Agricultor, a trajetória de Rejane Cassol lembra que a sucessão rural não é definida pelo gênero, mas pela dedicação, pela coragem e pelo amor à terra. Porque, às vezes, o maior destino da vida não é seguir um caminho novo. É encontrar coragem para voltar para casa.
A SEMENTE DO FUTURO – Antes de encerrar a conversa, Rejane deixa uma mensagem que resume a própria trajetória: “Trabalhe com amor. Nunca desista, mesmo nos dias difíceis. Aprenda um pouco todos os dias, mantenha a humildade e coloque Deus sempre à frente. Quando fazemos isso, o propósito floresce no tempo certo”.

Hoje, nove anos depois de assumir a gestão da fazenda, Rejane olha para trás com a tranquilidade de quem sabe que fez a escolha certa

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