Especial

TRAJETÓRIA

Família Della Pasqua completa 70 anos em Medianeira

Na noite de 24 de junho de 1954 chegava a Medianeira uma família que iria deixar marcado o seu legado de dedicação, trabalho e amor por esta cidade. José e Nadir Della Pasqua trouxeram em sua bagagem quatro filhos, nascidos em Serafina Corrêa (RS): Leda, Maria Emília, José Silvestre e Vitor Hugo. José com 29 anos e Nadir com 27 anos vieram com o intuito de procurar novos horizontes para progredir e criar a família. Em Medianeira, nasceram mais três filhos: Jorge Luiz, Reinaldo e Julio. E como achavam que a família era pequena, adotaram, com dois anos de idade, Eni Maria. “Paramos no Hotel Fossá e faziam de tudo para nos agradar. O Sr. João Fossá ia pescar todos os dias lambaris, pois carne não tinha; sua esposa Domingas procurava fazer bolos para nós, mas não tinha todos os ingredientes e ficava mais ou menos, mas ninguém reclamava, só agradecia. Como viemos de Cascavel quase de improviso, porque já tínhamos arrumado a mudança para voltar para o Sul, depois de ter morado um ano em Cascavel e não ter economizado nada. Disse para José: ‘Se é só para viver, vamos viver em Porto Alegre, lá será mais fácil dar estudo para as crianças. Ele até que concordou, mas na véspera de viajarmos chegou Pedro Soccol (colonizador de Medianeira) e fez uma proposta muito boa e acabamos vindo para cá. Como não tinha casa para morar, voltei para Porto Alegre com os filhos e José começou a trabalhar na Colonizadora Bento Gonçalves, até que ele foi nos buscar depois que da casa pronta – era a única com veneziana, a mais bonita da cidade”, contou D. Nadir em entrevista ao Jornal Mensageiro, em 2017. O filho José Silvestre complementa    que José e Nadir comemoraram a mudança para a casa nova com uma taça de champanhe. “Era dia de comemorar. Só estavam devendo para o primo Pedro Soccol uma parte da casa, situada na Avenida João XXIII esquina com a Rua Argentina”, relata.

Segundo ele, a Medianeira de então era muito pequena e como os demais pioneiros, tinham que viver sem energia elétrica e água encanada. “O transporte na época era o ‘Jeep da firma’. Não tinha açougue regular e cada família produzia o seu sustento. Por isso, José e Nadir tinham no fundo do lote galinhas, porcos e até uma vaca de leite. Eram tempos difíceis para quem tinha vindo de Serafina e Porto Alegre e enfrentar essas dificuldades dos primeiros moradores. Mas como os demais, alimentavam o sonho de ver Medianeira crescer e se tornar uma bela cidade”, salienta José Silvestre.

Nadir ainda relatou na entrevista que no começo da cidade todos trabalhavam muito, mas eram felizes. “Podia-se dormir sem passar a chave na porta. A cada mês ou dois chegava uma caminhonete com compradores de terra e era uma festança. A Firma Industrial Bento Gonçalves construiu uma Carpintaria e uma Casa da Imigração para abrigar as famílias até que as casas ficassem prontas. Quando chegava uma nova família era uma alegria, cantavam de noite e eu achava lindo. Quando se ouvia barulho de um carro (tinha só Jeep da Firma) era um alvoroço, pois o normal era silêncio”, descreveu.

Aos poucos a cidade foi crescendo e se desenvolvendo, surgindo o comércio, oficinas, vieram os agricultores, profissionais diversos: alfaiates, barbeiros, carpinteiros, açougueiros, pintores, enfim aqueles profissionais necessários para uma sociedade conviver e progredir. “Quando chegamos, a Igreja estava pronta e o hospital ia ser construído. Logo chegou o Padre Antão, o médico Alcebíades Barbosa e as Irmãs Servas do Espírito Santo, em 1955. No começo as aulas eram dadas por uma professora que vinha de Foz do Iguaçu nas segundas-feiras e voltava no sábado. Nunca esqueço que um dia ela lavou os sapatos e colocou no forno do fogão à lenha e esquecemos. Quando lembramos os sapatos tinham encolhido…rimos muito”, relembrou D. Nadir, sempre muito bem-humorada.

Nos primeiros anos, José Della Pasqua trabalhava na Firma Colonizadora e logo começou a atuar na sua profissão de guarda livros. Criou então, o Escritório Contábil RIDAN (Nadir de trás para frente) por afeto a sua mulher. Mas como sempre gostou de política, já havia sido vereador em Guaporé, representando o Distrito de Serafina, logo que chegou a Medianeira já se envolveu e foi eleito vereador em Foz, representando o Distrito de Medianeira. “Como era difícil participar das reuniões da Câmara, tinha que ir de Jeep pela Estrada Federal (BR 277). Ia num dia e voltava no outro, porque era uma viagem complicada, estrada de chão. Na verdade, uma picada no meio do mato”, relembra José Silvestre.

Junto com Pedro Soccol e outros valorosos medianeirenses, lutou pela emancipação política de Medianeira e quando ela veio se tornou o primeiro prefeito de nossa cidade. “Foi prefeito intendente, nomeado pelo então governador Moisés Lupion. Instalou o município. Seu mandato durou poucos meses e foram realizadas eleições. José também foi eleito vereador na primeira legislatura da Câmara Municipal de Medianeira e seu partido elegeu Ângelo Darolt para prefeito. Após, ele foi eleito prefeito (Gestão 1966-1970)”, informa o filho José Silvestre.

Na sua gestão foi criada a Comarca de Medianeira; os distritos de Missal e Jardinópolis; instalados os telefones; inaugurada a Ponte sobre o Rio Ocoy (esforço conjunto da prefeitura, população do Distrito de Missal e firma SIPAL; foi ele quem solicitou a instalação de uma Agência do Banco do Brasil em Medianeira – que iniciou as atividades em 1971,

José Della Pasqua também liderou o movimento da Campanha Nacional pró BR-163. A ideia era que o traçado passasse por Medianeira aproveitando a Estrada do Colono que já era uma via utilizada pelos colonizadores do Sul rumo ao Oeste do Paraná e outros estados da federação. Ele presidiu dois conclaves no ano de 1968, um em Medianeira e outro em Irai-RS; visto que o Governo Militar anunciara que para a década 70 dinamizaria o Plano de Integração Nacional fazendo uma ligação da BR-163 de Cuiabá a Santarém no Pará, incluindo na rodovia os trechos de Rondonópolis a Dourados no Mato Grosso; Guaíra a Porto Mendes no Paraná.

José tinha na esposa Nadir também uma companheira em olhar para as necessidades do município e agir em prol dos que tinham mais dificuldade. Além de eterna Primeira Dama, trabalhou como cartorária do Cartório de Registro Civil desde 1958, que funcionava na sala da casa da família. E em 1970 assumiu o Cartório de Registro de Imóveis, na ocasião da criação da Comarca. “Tive a oportunidade de fundar a APMIF, depois com o Rotary, participar da fundação da ASR, da APAE. Por amizades adquiridas colaborei com a fundação do Colégio Mondrone, fui ‘instada’ a fundar o Clube Soroptimista. O importante também foi a concretização do sonho de ver nossos filhos formados”, ressaltou D. Nadir orgulhosa.

O filho José Silvestre acrescenta que José e Nadir sempre foram gratos pelo que receberam desta terra e jamais pensaram em sair daqui. “Criaram seus filhos e lhes deram condições de estudar e se formar profissionalmente. Nós filhos, somos muito gratos por trazermos os ensinamentos cristãos que nos foram passados em casa. Seguimos ou procuramos seguir o exemplo dessas pessoas de bom coração e honestidade”, reitera.

Além da gratidão, outro sentimento citado por eles e por outros pioneiros é a saudade daquela Medianeira do início. “A vida teria sido difícil para mim, mas tive a sorte de ter ótimos vizinhos, qualquer aperto eu apelava para eles”, afirmou D. Nadir. O filho, José Silvestre completa que eram bons tempos aqueles em que a famílias pioneiras se ajudavam e viviam harmonicamente. “Com muita boa vontade aqueles pioneiros sofriam e se alegravam juntos, como uma fraternidade, que só nos dá saudade. Um amigo me disse um dia que a história de Medianeira se confunde com a história de José e Nadir Della Pasqua”, finaliza José Silvestre.

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