DIA DAS MÃES
Quando tudo ainda era silêncio
Mães escrevem cartas para si mesmas antes de terem vivenciado o maior amor do mundo
Texto por Ana Cláudia Valério . Fotos por arquivo Pessoal . 8 de maio de 2026 . 14:45
A maternidade não começa no nascimento de um filho, ela começa antes, nas expectativas, nos medos silenciosos e nas certezas que, muitas vezes, não resistem à realidade. Entre o que se imagina e o que se vive, existe um caminho intenso, transformador e, quase sempre, imprevisível.
Para marcar o Dia das Mães, quatro mulheres aceitaram um convite incomum: escrever cartas para si mesmas no passado, quando ainda não eram mães. Em palavras sinceras, elas revisitam quem foram, reconhecem o que aprenderam e revelam o que só a experiência é capaz de ensinar.
São conselhos sim, mas principalmente são encontros com a própria história, e com a mulher que continuou existindo mesmo depois de tudo mudar.

Oi futura mamãe,
Primeiramente só queria te dizer que vai dar tudo certo no final (eu queria saber disso antes). Eu sei que o parto prematuro te surpreendeu, mas vai dar tudo certo mesmo, ele vai ficar bem, vai para casa saudável e você vai se fortalecer mais do que nunca. Nenhum curso, palestra ou “intensivão” da maternidade iriam te preparar para isso, como os dias de UTI neonatal fizeram.
Ah, queria te falar também para não se preocupar com a cesárea, ela será tranquila, pode focar só no bebezinho que está vindo.
E calma, você vai aprender a segurar um bebê recém-nascido e a trocar a fralda com o tempo.
E uma coisa que eu sei que você não sabe ainda, a amamentação dói no início, mas é incrível, aguenta firme que vai passar. E quando o leite acabar, está tudo bem.
Eu sei que todo mundo te falava que você não iria dormir, e no início você não vai mesmo, mas não precisa ficar checando se ele está respirando a cada 5 minutos (risos).
Você vai trocar fralda de cocô feliz, acredita?
Vai trocar várias fraldas por dia e sempre feliz, porque vai descobrir que isso é sinal de bebê saudável. Vai encher o teu celular de fotos de bebê e pela primeira vez (depois da era digital) vai começar a revelar todas, para não perder nenhum pedacinho dele e conseguir lembrar de tudo, porque vai passar muito rápido.
Vão ter muitas “primeiras vezes”, a primeira risada, a primeira papinha, a primeira vez sentando sozinho e assim por diante. Não esquece de curtir, gravar e guardar na memória.
Que conselho daria? Seja uma mãe raiz! Eu sei que com tanta informação a gente fica preocupada e alerta com tudo, mas o excesso de informação te sobrecarrega, então acalma o seu coração e siga os conselhos de quem tem experiência, principalmente das vovós!
Depois de virar mãe a gente começa a olhar para nossa mãe com outros olhos, a vulnerabilidade que a maternidade traz. Começa a entender as coisas que antes julgava e começa a amar de forma mais profunda.
Passei a entender que a vida mudou, que um ciclo se encerrou e esse novo ciclo veio também com mudança de prioridades. Hoje ele é a minha prioridade.
A maternidade ensina e transforma.

Oi, deixa eu te contar…
Sim, “senta que lá vem história”: você acha que está preparada. Não está. Mas calma — ninguém está.
Você vai ler, pesquisar, perguntar, assistir vídeo, ouvir conselho de todo mundo (cuidado com isso, viu) e, mesmo assim, vai ter dia que vai pensar: “o que exatamente eu estou fazendo aqui?”
Você vai se cobrar incessantemente. E muitas e muitas vezes será cobrada e criticada.
Vai ter sempre alguém para achar que sabe mais da sua filha do que você. Você vai se achar uma péssima mãe várias e várias vezes.
Mesmo que ela mesma te diga que você é “a melhor mãe do mundo”.
E sim, ela tem razão — você é uma ótima mãe! Do seu jeito, mas é.
Ninguém te contou que o tal “instinto materno” não vem com manual, nem com botão de ligar automático. Ele vai sendo construído meio no improviso, meio na tentativa e erro.
Nem te contaram que as vezes esse instinto falha. Você vai ligar para a escolinha e ouvir que “sim mãe, ela está bem”. Vai achar que ela está em apuros, quando apenas esqueceu o celular em casa. Ou não vai acordar de madrugada para buscá-la na volta daquela viagem…
E por falar em erro, você os vai ter sim. Vários; inclusive. Alguns pequenos, outros que você vai revisitar mentalmente às 3h da manhã (justamente quando acordar por outro motivo também). Mas nenhum a colocará em risco de vida. Talvez crie algum trauma. Nada que a terapia não resolva.
Você vai sentir um cansaço que não se resolve com uma boa noite de sono, até porque, por um tempo, isso deixa de existir. E quando a adolescência bater à porta você viverá noites quebradas novamente. Deve ter esperança no fim desse túnel, outro dia eu te conto.
Mas, curiosamente, você vai continuar funcionando. Nem você vai entender como. Às vezes vai dar uma surtada. Quase que irá pifar. Mas vai voltar ao seu estado “normal”, porque ela é sua maior razão para ser cada vez melhor. E você nunca vai desistir disso!
Ah! Tem mais uma coisa importante: você não vai deixar de ser você. Mesmo que se sinta outra, com todas as mudanças corporais, hormonais e todas as demais. Mas vai precisar se lembrar constantemente de quem você realmente é, porque a rotina e a sociedade vão tentar te engolir.
E sim, vai ter dia que você vai querer quinze minutos de silêncio. Ela vai te ajudar nisso e você vai descobrir que isso vale mais do que muita coisa cara por aí.
Tem também algo que ninguém explica direito: você começa a enxergar sentido em coisas muito simples. E nada mais será só seu ou do casal; será de vocês. E ela será sua eterna prioridade.
Iria dizer que “no final”, mas ser mãe não tem fim. Então, “ao longo da jornada” nem tudo será mágico. Nem tudo será lindo. Terá bagunça, desordem, caos, culpa, dúvida. Mas terá sempre a vontade de fazer melhor o tempo todo e você saberá ser e estar presente, o tempo todo. Haverá amor. Amizade. Cumplicidade. Parceria. Muita música e boas risadas.
Ah, e mais uma: (essa a gente aprendeu rápido) você não precisa dar conta de tudo sozinha. Aceitar ajuda não te faz menos capaz — te faz mais inteligente. Quando você está bem, sua filha estará ainda melhor. E se tiver uma rede de apoio para te ajudar nisso será essencial também! Nós temos. UFA!
Quando você olhar para trás, no meio da correria, vai perceber que você cresceu junto (essa é a parte mais linda de todo o processo: evoluir junto) e que todo esforço, valeu muito mais do que a pena. Valeu pela vida inteira.
De mim, que ainda não tem todas as respostas, mas já entendeu o que realmente importa e vem deixando as cobranças e comparações cada vez mais de lado.
Com carinho para você, que está iniciando essa doce jornada de amor!
E nós duas não romantizaremos a maternidade, mas achamos que a parte mais sensacional da vida é ser mãe!

Oi Géssica,
Chegou a hora, agora você vai ser mãe de 3 filhos. Eu sei que assusta, e como eu sou você, posso dizer o que você sente: você tem medo de não dar conta, de não saber como fazer dormir, trocar fraldas, como saber quando eles vão ter fome, sono, cólicas, o que fazer se eles começarem a espirrar ou tossir. Vai se cobrar muito, e sentir que tudo que você vai fazer, não vai ser o suficiente. Vai ter medo de dormir à noite e não perceber se seus pequenos vão estar com a fralda suja, vai ter medo de deixar alguém pegar no colo, dar banho, fazer dormir. Vai se sentir cansada o tempo todo, com sono o tempo todo, seu corpo vai mudar, sua vida inteira vai virar do avesso, e você está certa. Isso vai acontecer.
Mas eu tenho uma coisa para te falar: VOCÊ VAI CONSEGUIR, VOCE DÁ CONTA.
Você vai aprender a trocar fralda como se fosse expert, vai sentir no fundo do peito quando seus pequenos vão precisar de você, vai olhar para carinha deles e saber se o choro é de fome, sono, ou só quer o seu colinho, vai ter uma coleção de remédios em uma caixinha de sapatos para qualquer situação.
Você vai ser uma Mãe coruja, vai estar sempre tirando fotos de tudo que eles fizerem, sua galeria vai estar cheia de fotos só deles, da boca suja, da casa bagunçada, deles dormindo, comendo, brincando, sorrindo, com roupinha de sair, deles deitados em posições que você nem imaginava que seriam possíveis.
Você vai se emocionar quando eles começarem a engatinhar, vai chorar de alegria quando disserem mamãe pela primeira vez.
Vai se derreter quando eles dormirem no seu colo e começarem a roncar bem baixinho, ou quando derem seus primeiros passinhos, quando disserem eu te amo pela primeira vez.
Cada filho com seu jeitinho único, talvez mais agitado ou calmo, serio ou sorridente, seus gostos ou desgostos por legumes e guloseimas variadas, cada um vai trazer uma experiência única e maravilhosa, com seus medos individuais, suas vontades únicas, suas experiências e descobertas. E você vai estar lá, ajudando, ensinando, repreendendo se necessário, dando amor, muuuuito amor, se entregando de corpo e alma para eles sempre.
Você vai sentir que toda fralda suja, noite mal dormida, cara de cansaço e falta de vaidade, vai ser tudo tão pequeno perto desses seres humanos lindos que você trouxe a esse mundo. E logo virão outros medos, primeiro dia de escola, roupas que se acumulam no varal, depois maquiagens, namorados ou namoradas, festas do pijama, entre outras coisas de adolescentes, mas isso fica para uma outra carta.
Nunca se esqueça que você vai ser a MELHOR MÃE DO MUNDO, e tudo que seus filhos vão precisar, é que você esteja ao seu lado, com roupa suja, cabelo bagunçado, sem maquiagem e sem filtro, tudo que eles querem é VOCÊ, do jeitinho que você é. Você vai ser o mundo todo para eles, e eles serão o seu mundo para todo sempre.

Oi Franciele,
Você passou 40 dias de repouso absoluto. Foram dias difíceis, mas também dias de aprendizado, descobertas e redescobertas — e sei que esta jornada está apenas começando. Aprendi que gravidez não é doença, mas exige cuidados especiais com o corpo e com a mente.
Percebi que o nosso corpo muda para que a magia da vida aconteça, que os sentidos ficam mais aguçados e que, em questão de horas, a vida pode se transformar radicalmente. Entendi que há coisas que não conseguimos planejar, que ser paciente não é apenas uma qualidade, mas uma atitude que precisa ser exercitada todos os dias.
Compreendi que, quando se está grávida, as decisões não podem ser egoístas, pois existe uma vida que depende essencialmente de nós. Descobri que o amor que oferecemos ao mundo retorna com doçura, e que amar é mais do que falar: é uma prova diária, que se manifesta de diversas formas.
Vi que, mesmo a quilômetros de distância, há pessoas que conseguem se fazer muito presentes. Acreditei ainda mais que confiar em Deus é deixar que seja feita a vontade dele, e não a nossa.
Reafirmei minha convicção de que mãe é o ser mais incrível que Deus criou. Se antes eu já valorizava a minha, hoje valorizo ainda mais todas as mães.


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