Especial

DIA DO PROFESSOR

Uma vida dedicada a ensinar e transformar histórias

Da infância simples no interior à sala de aula, Solange Salete Bertotti Kuhn construiu uma trajetória de 28 anos na Educação, guiada pela convicção de que ensinar vai além de alfabetizar: é acolher, incentivar e deixar marcas para a vida

A lembrança de uma professora que a levava para casa em sua bicicleta, ainda na infância, ajuda a explicar a escolha profissional de Solange Salete Bertotti Kuhn. O carinho e a atenção de Elenir Zanchettin, responsável por sua alfabetização, despertaram nela o desejo de seguir a docência e, de alguma forma, retribuir o cuidado recebido.
Aos 48 anos, Solange é professora concursada da Rede Municipal de Ensino de Medianeira há 28 anos. Atualmente, atua com uma turma de 1º ano do Ensino Fundamental em tempo integral, na Escola Municipal Ulysses Guimarães, acompanhando crianças em uma fase decisiva de descobertas, quando começam a ler, escrever e reconhecer as próprias capacidades.
Filha de José Bertotti e Idalina Fachin Bertotti, trabalhadores rurais e pioneiros da Linha Morro da Salete, cresceu em uma família simples, onde o trabalho e a solidariedade eram ensinados pelo exemplo. É irmã mais nova do padre Sérgio e de Salesio Bertotti, esposa de Jorge Dari Kuhn, caminhoneiro, e mãe de Amanda Carolina Kuhn, formada em Relações Internacionais. “Venho de uma família simples, trabalhadora e de bom coração, que sempre ensinou, principalmente pelo exemplo, a importância de fazer o bem e ajudar o próximo. Esses valores me acompanham até hoje”, conta.
Sua infância no interior foi marcada pelos estudos em uma sala multisseriada. Depois de concluir o Ensino Fundamental, cursou Magistério no Colégio Mondrone, graduou-se em Pedagogia e realizou especializações na área da Educação. “Sempre acreditei que aprender é importante em todas as fases da vida e que, para ensinar, também precisamos estar dispostos a continuar aprendendo”, afirma.


O ACOLHIMENTO QUE SE TRANSFORMA EM VOCAÇÃO – A inspiração para a docência veio da própria experiência como aluna. O gesto da professora Elenir, que a acolhia e, em algumas ocasiões, a levava para casa de bicicleta, permaneceu vivo em sua memória e ajudou a moldar sua compreensão sobre o papel do professor. “A exemplo dela, entendi que educar vai além de apenas alfabetizar: é acolher, incentivar e promover a diferença na vida das crianças”, recorda.
Ao longo da carreira, Solange trabalhou com diferentes faixas etárias, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, e passou por escolas de Medianeira e Serranópolis do Iguaçu. Em 2014, retornou à Escola Municipal Ulysses Guimarães, onde permanece. Cada experiência contribuiu para uma trajetória construída com dedicação, aprendizado e amizades.
OS PRIMEIROS PASSOS DE GRANDES DESCOBERTAS – Na turma do 1º ano em tempo integral, cada letra reconhecida, palavra lida ou frase escrita representa uma conquista. O trabalho exige atenção ao ritmo de cada criança e estratégias que tornem o aprendizado significativo. “É uma experiência desafiadora, mas também muito gratificante, pois acompanhar as crianças tão de perto, justamente nessa fase tão importante da vida escolar, é algo muito especial”, explica.
O tempo ampliado permite diversificar as atividades com jogos pedagógicos, brincadeiras e experiências lúdicas, além de favorecer a autonomia, a socialização e o respeito às diferenças. A formação, nesse contexto, ultrapassa a alfabetização e alcança também os valores necessários à convivência.
Entre os desafios atuais, Solange destaca as mudanças na infância e o contato cada vez mais precoce com as telas. Despertar o interesse pela leitura, pelas atividades práticas e pelas relações humanas exige criatividade e planejamento. “O que muitas pessoas não enxergam é todo o trabalho que existe por trás de uma aula: planejamento, preparação de materiais, avaliação, acolhimento e busca constante por estratégias que atendam às necessidades dos alunos”, ressalta.
AS MARCAS QUE PERMANECEM – Mesmo diante dos desafios, Solange afirma que nunca pensou em deixar a Educação. O que a motiva são as crianças e as conquistas que acompanham seu desenvolvimento. “Cada conquista, como ler uma palavra nova, escrever uma frase ou superar uma dificuldade, demonstra que o esforço vale a pena”, diz.
A recompensa também aparece anos depois, nos reencontros com antigos alunos. “Ver essas crianças crescerem, conquistarem seus espaços e contribuírem para a sociedade, mostra que nosso trabalho deixa marcas que vão além da sala de aula. Saber que fiz parte dessa caminhada é motivo de orgulho e gratidão”, afirma.
A troca com os alunos também transforma quem ensina. “As crianças me ensinam a pureza, a beleza e o encontro, que me fazem acreditar na Educação como agente transformador da sociedade”, resume.

Para Solange, educar vai além de apenas alfabetizar: é acolher, incentivar e promover a diferença na vida das crianças
Para Solange, educar vai além de apenas alfabetizar: é acolher, incentivar e promover a diferença na vida das crianças

VALORIZAR QUEM ENSINA Com quase três décadas de experiência, Solange defende que a valorização dos professores precisa ir além das homenagens. Remuneração digna, boas condições de trabalho e oportunidades de formação continuada são fundamentais para reconhecer a contribuição desses profissionais. “Gostaria que a sociedade respeitasse mais os professores e que os governantes de todas as esferas buscassem valorizar efetivamente esses profissionais”, defende.
Ao pensar no legado que deseja deixar, Solange vai além dos conteúdos escolares. Quer que seus alunos levem consigo valores, confiança e disposição para continuar estudando e realizando seus sonhos. “Mais do que ensinar conteúdos, quero ter contribuído para sua formação como pessoas, incentivando-os a acreditar em suas capacidades e a enfrentar os desafios da vida”, afirma.
Para quem está começando na docência, a mensagem de Solange é: “estudem, dediquem-se e assumam essa profissão com responsabilidade e comprometimento. A educação exige disposição para aprender constantemente, sensibilidade para compreender cada criança e, principalmente, a convicção de que nosso trabalho faz a diferença”, destaca a professora.
A menina que encontrou na atenção de uma professora a inspiração para escolher seu caminho hoje acompanha outras crianças em suas primeiras descobertas. O cuidado recebido na infância transformou-se em compromisso e continua presente em cada nova aprendizagem. Porque, para Solange, ser professora é acreditar no potencial de cada aluno e compreender que uma palavra de incentivo ou um gesto de acolhimento podem permanecer muito além dos anos escolares.

Na turma do 1º ano em tempo integral, o trabalho de Solange ganha contornos particulares. É uma fase em que cada letra reconhecida, cada palavra lida e cada frase escrita representa uma conquista
Na turma do 1º ano em tempo integral, o trabalho de Solange ganha contornos particulares. É uma fase em que cada letra reconhecida, cada palavra lida e cada frase escrita representa uma conquista

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