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Nosso Povo

SUPERAÇÃO

Da Amesfi para a Universidade

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Cristiano Bueno no dia da colação de grau com seus pais Osvaldo Dias e Claudina Ana

A Coluna Nosso Povo desta semana é sobre um rapaz medianeirense de 31 anos, que teve Toxoplasmose ao nascer, fazendo com que perdesse totalmente a audição em um ouvido e em outro  teve perda moderada e usa aparelho auditivo. No entanto, mesmo com a surdez, jamais deixou de correr atrás dos seus sonhos e, no último dia 21 de fevereiro, formou-se Tecnólogo em Gestão Ambiental pela UTFPR Medianeira – primeiro acadêmico surdo a colar grau pela Universidade Tecnológica.

Filho de Osvaldo Dias/Claudina Ana Bueno, irmão de Giovani, Cristiano Bueno acabou nascendo surdo. “Meus pais me chamavam, chamavam e eu não ouvia; tudo por causa da doença que tive ao nascer. Comecei a estudar somente com quatro anos de idade, após alguns conhecidos dos meus pais falarem que havia uma turma especial numa escola em Medianeira. Naquela época, foi bastante difícil porque eu era obrigado a falar  e ainda não existia a LIBRAS  (Língua Brasileira de Sinais).  Mas a partir de 1996 comecei a substituir a linguagem verbal pela Libras”, relembrou Cristiano.

E depois que  abriram a Amesfi em Medianeira, Cristiano começou a frequentar a escola para aprimorar o uso da Libras. “Tudo o que aprendi agradeço a professora Solange e outras professoras que passaram na minha vida.  Além disso, havia aulas de oralismo, não parei de falar por causa da surdez. Porque quando eu estava em casa com meus pais eles falavam e não usavam os sinais”, disse.

Chegou o momento em que começaria a atuar no mercado de trabalho. “Trabalhei três anos e meio na Lar Supermercados e, depois, fui para a Pernambucanas; onde trabalho há 09 anos – para preencher vaga de trabalhador com alguma deficiência. Mesmo com a surdez, a aceitação foi a melhor possível, sempre contando com a colaboração do meu chefe e demais colegas atendentes”, pontuou.

E após fazer a prova do Enem ainda em 2013, Cristiano conquistou bons resultados para iniciar a graduação de Tecnologia em Gestão Ambiental no ano seguinte, pela UTFPR Campus de Medianeira. Ele relembra como foram os quatro anos de estudo na Universidade. “Foi algo normal porque sempre tive muita força de vontade para estudar, contando com ajuda dos professores e outros colegas de sala de aula; nunca com respostas prontas, somente tirando dúvidas. Também contei com o auxílio da tradutora-intérprete de Libras  da UTFPR, Darlene Wermouth; que sempre me esclarecia as dúvidas no significado das palavras durante os quatro anos da faculdade. Terminava as aulas em sala e ia para a biblioteca estudar . As vezes continuava os estudos até duas da madrugada”, contou o rapaz.

Concluída a faculdade, Cristiano confirma as dificuldades que teve durante a graduação.  “Foi  puxado, mas valeu a pena. Às vezes precisava sobrar mais tempo para estudar, então diminuía as refeições diárias. Saia pouco nos finais de semana pela quantidade de trabalhos para fazer e conteúdos para estudar. Além disso, o estágio e o Trabalho de Conclusão de Curso foram fases bastante cansativas. Ficava muito preocupado porque precisava de mais tempo para concluir… e deu certo”, lembrou Cristiano, que também contou com a  mediação da comunicação realizada pela  tradutora Intérprete de Libras  Rosangela Bogoni, que  o acompanhou em todos os atendimentos de orientação do Trabalho de Conclusão do Curso.

Alegria e felicidade de Cristiano, mais felicidade ainda para os professores da Associação Medianeirense dos Surdos e Fissurados (Amesfi) , escola que ele frequentou e teve a base para aprender a Libras. Pois ele foi o primeiro surdo a se formar na UTFPR Medianeira, além de outros surdos que se formaram em outras faculdades. “Os surdos estão no contra turno na escola de educação especializada, mas são capazes de fazer uma faculdade. Acompanhei o Cristiano por seis meses durante o Trabalho de Conclusão do Curso . Não foi fácil porque as mesmas angustias que ele sentia, eu também tive enquanto intérprete; ele precisava produzir e dependia do meu retorno. E vê-lo formado, senti muito orgulho. Nós que acompanhamos os surdos desde pequenos, principalmente na Escola Amesfi onde eu trabalhava, ver ele se formando foi algo gratificante. Porque muitas pessoas ainda acreditam que os surdos não deveriam estar nas universidades, acreditam que os  surdosnão têm a mesma capacidade de alguém que ouve. A única limitação é a ”língua” a forma de se comunicar, pois para os surdos a língua materna é a Libras e a segunda e a língua portuguesa.   Essa é a prova definitiva de que são capazes e que todos eles precisam de muito apoio dos familiares, amigos e professores”, finalizou a intérprete Rosangela.

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Nosso Povo

Por: Tanner Rafael Gromowski

Formado em Letras português/espanhol pela UDC Medianeira, pós graduado em Língua Portuguesa pela FAG Cascavel, trabalha como repórter e redator desde 2013 no jornal Mensageiro.

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