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Desafiando o topo das Américas

Medianeirense chega a quase 5 mil metros de altitude, mas acaba tendo que desistir da escalada para não por a vida em risco.

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O militar da Força Aérea Rui Junior já conhecido aqui da “casa” pelas aventuras que se dispõe aprontou mais uma há poucos dias: tentou chegar ao topo do Aconcágua, a montanha mais alta fora da Ásia, com 6.961 metros de altitude, o ponto mais alto tanto do Hemisfério Sul quando no Ocidental. Mas a subida foi severa e, vetado pelos médicos, ele teve que abortar a missão, para não por a vida em risco. Rui descreveu assim como foi a aventura: “Em janeiro de 2019 quando voltei da escalada ao Lanin-vulcão em forma de cone, na fronteira entre a Argentina e o Chile, conversei com amigos sobre qual seria a próxima loucura, relatei meu interesse ao gigante das Américas. Um amigo de longa data, Adriano Cruel, que também é escalador esportivo em Curitiba, e muito mais experiente que eu em alta montanha, demonstrou interesse. Cruel já escalou a agulha Guillaumet em Chalten e o Huascarán no Peru, e várias outras.”

O Aconcágua fica na cidade de Mendoza, Argentina. Uma montanha de 7 mil metros, a maior das américas e a segunda maior montanha do projeto 7 cumes. Seria a maior montanha do mundo caso a Cordilheira do Himalaia não existisse, onde fica o Everest com 8.849 metros. A preparação de Rui começou então em 2019 e contou com treinamento para longas caminhadas em altas altitudes, optou por deixar o treinamento de escalada vertical de lado por um tempo, para se preparar ao máximo, já que decidiram subir com o mínimo de auxílio externo possível.

Em novembro de 2019, ele entrou em contato com um guia amigo, Maximo Kausch, que tinha acabado de voltar do Paquistão onde guiou a primeira brasileira a escalar o K2, a médica Karina Oliane (apresentadora da TV Globo). O guia informou que em janeiro estaria no Aconcágua para guiar alguns clientes e que eles se encontrariam na montanha, o que poderia auxiliar na logística. Informou ainda que a temporada estava muito seca, com pouca neve e com umidade relativa muito baixa. “Isso dificulta muito, pois em altas altitudes o corpo humano necessita estar muito hidratado, o gasto calórico é bem maior e em compensação não se sente fome ou sede, devido ao desconforto que a altitude provoca. Caso o organismo não se acostume ao processo de aclimatação, o escalador contrai o que chamam de ‘mal da montanha’, que inclui fortes dores de cabeça, falta de apetite, insônia e náusea, sintomas que se não tratados podem causar edemas no cérebro e pulmão, e levar a morte rapidamente”, explicou Rui.

A ESCALADA – Em 09 de Janeiro, o militar medianeirense e o amigo chegaram à Mendoza e deram entrada ao Parque Nacional Aconcágua, onde “o protagonista” do parque já era visível. Perceberam que a escalada não seria nada fácil, havia pouquíssima neve no cume o que significava que nos acampamentos mais baixos seria difícil conseguir água de qualidade, o que foi confirmado depois. “Começamos a caminhada, eu com minha modesta cargueira levando mantimentos para os primeiros acampamentos. Foi um trekking muito confortável, apesar da mochila de 21kg e o calor que fazia no vale do Rio Horcones. O movimento frenético dos “Esquilos” (helicóptero de serviço de resgate, que sou familiarizado na Força Aérea), carregando tonéis de água para o acampamento base, confirmava a falta de água. Após algumas horas chegamos ao primeiro acampamento, montamos nossa barraca e comemos algo. No segundo dia, comecei a sentir uma dor de cabeça extremamente desconfortável, que me fez lembrar dos tapas que levava na cabeça quando cochilava durante os cursos operacionais, (risos). Nada que eu fazia melhorava, tomei muita água para me manter hidratado e perdi as contas de quantas aspirinas tomei. Acordei muito mal no dia que faríamos uma aclimatação na parede sul do Aconcágua, em Plaza Francia, entre 4 e 5 mil metros e resolvemos sair cedo, pois era uma caminhada de 10 horas ida e volta. Quando cheguei ao mirador da parede sul, percebi o porquê é uma das mais difíceis do mundo. Com seus 3km em vertical, misturando rocha e gelo, entendi o porque foi proibida sua escalada quando a primeira avalanche caiu. Tentei comer algo ali e tomar água para voltar à base, porém meu estômago devolveu tudo. Já estava com dor de cabeça há alguns dias e agora não conseguia me alimentar. O Cruel percebeu que não estava bem e fomos ao serviço médico do parque. Para poder progredir ao próximo acampamento é necessário permissão médica. Olhando minha fisionomia dentro da barraca, a médica percebeu que não estava bem. Mediu minha pressão e minha saturação. O ideal é quando entre 95 e 100% das células vermelhas estão transportando oxigênio. Eu estava com 84% contra 95% do meu parceiro”, relatou Rui.

Ele seguiu narrando: “A médica sugeriu (aos berros), que eu deveria baixar na manhã do dia seguinte. Levando em conta minhas queimaduras no rosto, lábios e as bolhas nos pés, conversei com o Cruel e decidimos que eu abandonaria a montanha.  Eu poderia tentar me recuperar em altitudes mais baixas e depois tentar escalar novamente, mas isso estragaria nossa estratégia de carga e mantimentos. Não quis atrapalhar a tentativa dele, levando em consideração que ele estava muito bem. Na manhã seguinte ele prosseguiu ao próximo acampamento e eu desci (P%&$ da cara). Os tibetanos acreditam que as montanhas são seres místicos, local onde habitam os deuses, possuem vontade própria e decidem quem tem permissão de escalá-las. Eu também acredito. Tenho total conhecimento das minhas capacidades físicas e, apesar de estar em ótima forma, a minha fisiologia não se acostumou como planejei com as altitudes do gigante das Américas. Nunca perco. Ou eu ganho ou eu aprendo. É um ditado que uso muito, e usarei novamente quando voltar ao Aconcágua”, finalizou Rui

PS: O companheiro de aventura Adriano Cruel alcançou o topo na terça-feira, dia 21, às 12h.

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Por: Douglas Florêncio

Técnico em design gráfico e fotografia pelo Sesc/PR. Colunista esportivo, há mais de 10 anos trabalhando em jornal e outras mídias.

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