VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Acolhimento, investigação e prevenção: o trabalho da Polícia Civil no enfrentamento à violência familiar
A série especial sobre segurança pública avança para um dos temas mais sensíveis da sociedade: a violência contra a mulher e outros grupos vulneráveis. Em entrevista, a delegada Isadora Leão detalha o atendimento às vítimas, os desafios das investigações e a importância de romper o silêncio
Texto por Ana Cláudia Valério . Fotos por Imagem gerada por IA (freepik) . 13 de março de 2026 . 13:57
A violência doméstica ainda é uma realidade enfrentada por muitas mulheres e famílias. Em Medianeira, o enfrentamento desse problema passa pelo trabalho da Polícia Civil, que atua tanto na investigação quanto no acolhimento das vítimas. À frente desse trabalho está a delegada Isadora Leão, que destaca a importância de um atendimento humanizado e da integração com a rede de proteção para garantir segurança e justiça.
Segundo ela, uma das prioridades da atuação em Medianeira é oferecer um atendimento acolhedor, especialmente às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar e a outros grupos vulneráveis. “Buscamos fornecer um atendimento humanizado e célere às pessoas que precisam da intervenção da Polícia Civil, além de trabalhar para construir uma polícia cada vez mais integrada com a comunidade e com a rede de proteção”, afirma.
Isadora Leão conta com um setor específico voltado ao atendimento e investigação de crimes relacionados à Lei Maria da Penha e também de crimes sexuais contra vulneráveis. “O espaço, que já vinha sendo estruturado nos últimos anos, continua em processo de aperfeiçoamento para ampliar o atendimento e tornar o serviço público cada vez mais eficiente”, salienta.
Na prática, quando uma mulher procura a delegacia, o procedimento começa com a escuta do relato e o registro da ocorrência. Em muitos casos, o objetivo é solicitar uma Medida Protetiva de Urgência. A vítima é ouvida apenas uma vez, justamente para evitar a revitimização. Durante esse depoimento são indicados o possível agressor, testemunhas e outros elementos que possam auxiliar na investigação. “Essa oitiva é determinante para o andamento das diligências. Cada caso tem suas particularidades e o caminho da investigação depende do tipo de crime e das provas disponíveis”, explica a delegada.
Outro ponto destacado por Isadora Leão é que ambientes compostos majoritariamente por mulheres podem ajudar a encorajar denúncias. Para ela, isso contribui para aumentar a sensação de acolhimento e diminuir o medo de julgamento por parte das vítimas.
A representante da Polícia Civil também reforça que muitas mulheres ainda hesitam em denunciar por medo ou dependência emocional. Por isso, faz um alerta: “O amor não maltrata, não bate, não xinga e não dói. O ciclo da violência doméstica tende a se intensificar com o tempo, e o medo não deve ser uma sentença”. Ela orienta que vítimas busquem ajuda na delegacia ou por meio de canais como o Disque 180.
A violência contra a mulher pode se manifestar de diferentes formas. A legislação brasileira reconhece cinco tipos principais: violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial. Elas podem ocorrer isoladamente ou de forma combinada dentro de uma relação abusiva.
Para a delegada, a repressão policial é importante para responsabilizar o agressor, mas não é suficiente para resolver o problema de forma definitiva. “A prevenção e a conscientização são fundamentais para mudar a cultura da sociedade. Precisamos educar as novas gerações para que a violência não seja mais vista como algo normal”, ressalta.
Nos casos de crimes contra vulneráveis, como crianças e adolescentes, um dos principais desafios é o silêncio das vítimas, muitas vezes provocado pelo medo ou pela relação de confiança com o agressor. “Nesses casos, a prova técnica e o depoimento especial são instrumentos fundamentais para o avanço das investigações”, esclarece.
Isadora também destaca o papel da comunidade na identificação de possíveis casos de violência. “Mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, hematomas sem explicação ou medo excessivo de determinadas pessoas podem ser sinais de alerta”, pontua.
Muitas denúncias chegam à polícia por meio de vizinhos ou familiares, e esse apoio da sociedade é considerado essencial. “A sociedade é nossa aliada. As denúncias podem ser feitas de forma sigilosa pelos canais como o Disque 181 (segurança pública) ou o Disque 100 (direitos humanos). Quanto mais informações forem repassadas, maiores são as chances de ajudar quem está em situação de risco”, afirma.
À frente da delegacia, Isadora Leão resume sua missão em uma frase: “Transformar vidas de forma positiva por meio da intervenção da Polícia Civil”.
Como legado para Medianeira, a delegada afirma que pretende continuar aperfeiçoando o setor responsável pelo atendimento a vítimas de violência, fortalecendo o acolhimento, a humanização e a efetividade do trabalho policial.



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